Estratégia de Kassab conquista evangélicos e isola Lula no cenário religioso
O lançamento da pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência da República ganhou um reforço de peso com o apoio público do bispo Samuel Ferreira, líder do Ministério Madureira, uma das maiores correntes da Assembleia de Deus no Brasil. O movimento, articulado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, representa uma dupla vitória estratégica para o ex-governador de Goiás.
Além de garantir a simpatia de uma das principais lideranças evangélicas do país, a adesão de Ferreira praticamente sepulta as esperanças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT de estabelecer uma aproximação com o segmento religioso que mais rejeita o atual governo. O bispo, que se refere a Kassab como "mago da política brasileira", deixou claro seu posicionamento em vídeo apresentado durante a convenção do partido.
Encontro no Planalto não evitou rompimento
Em outubro do ano passado, Samuel Ferreira foi recebido no Palácio do Planalto em uma visita articulada pelo Advogado-Geral da União, Jorge Messias. O encontro, que girou em torno da indicação de Messias para o Supremo Tribunal Federal, manteve um tom amigável, mas não foi suficiente para manter o líder religioso neutro no processo eleitoral.
O PT chegou a tentar uma aproximação mais direta, pedindo a pastores que mantêm interlocução com crentes petistas que pelo menos evitassem criticar o partido nos púlpitos. No entanto, a declaração de apoio explícito de Ferreira a Caiado enterrou qualquer possibilidade de neutralidade por parte das principais lideranças evangélicas.
"Onde chegar nossa influência estaremos juntos dos milhões de pessoas que frequentam nossos cultos, dentro daquilo que a legislação permite, do lado de fora dos templos, conversando com o povo evangélico, que saberá reconhecer quem é Caiado", afirmou o bispo em seu pronunciamento.Poder de fogo religioso e capilaridade nacional
O peso político de Samuel Ferreira é considerável. Ele comanda a Convenção Nacional da Assembleia de Deus no Brasil, maior denominação evangélica do país, com impressionante capilaridade em todo o território nacional. A entidade conta com aproximadamente 42.000 templos, 102.000 pastores e milhões de membros ativos.
Embora o bispo costume promover palestras de diversos candidatos presidenciais em encontros com seus colegas e atenda a políticos de diferentes matizes ideológicos, sua postura democrática reconhecida pelos pares não impediu que fizesse uma escolha clara antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.
Pastor Otoni reforça tom da campanha evangélica
Durante o anúncio da pré-candidatura, o deputado federal e pastor Otoni de Paula, que deixou o MDB para se filiar ao PSD, deu o tom que a campanha pretende adotar junto ao rebanho evangélico. "A candidatura será uma opção de equilíbrio, não apenas para o Brasil, mas também para o segmento evangélico nesse país. Caiado será como um bálsamo para nós evangélicos", declarou o parlamentar.
Otoni, ex-bolsonarista ferrenho que chegou a se reunir e orar com o presidente Lula no ano passado após romper com o PL no Rio de Janeiro, prometeu viajar "do Oiapoque ao Chuí" para propagar a mensagem de "chega de guerra dentro da igreja". Curiosamente, em outubro, no âmbito local, o pastor dará apoio a Eduardo Paes, também do PSD, que disputa o governo do estado com apoio do PT.
Consolidação de Caiado como alternativa religiosa
A sinalização precoce de preferência por parte da principal ala da Assembleia de Deus indica que o segmento evangélico já começou a definir suas posições para as eleições presidenciais. A decisão de Ferreira deve influenciar significativamente outros líderes religiosos e seus fiéis, consolidando Ronaldo Caiado como uma opção viável para os evangélicos que buscam alternativas ao atual governo.
A estratégia política de Gilberto Kassab demonstra eficácia ao conseguir fechar as portas das principais igrejas evangélicas para Lula enquanto abre espaço para seu candidato no mesmo ambiente. O movimento representa um duro golpe nos planos petistas de ampliar sua base de apoio entre os religiosos, setor que tradicionalmente apresenta resistência às propostas do partido.



