Zelensky intensifica esforços diplomáticos para manter Ucrânia em evidência
Enquanto o conflito no Oriente Médio atinge novos patamares com ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e retaliações das forças islâmicas, a guerra na Ucrânia completa mais de quatro anos enfrentando o risco de ser ofuscada pelos eventos vertiginosos a milhares de quilômetros de distância. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem mobilizado todas as ferramentas diplomáticas disponíveis para garantir que sua causa não seja esquecida pela comunidade internacional.
Ligações e convites para retomar negociações
Nesta sexta-feira, 3 de abril de 2026, Zelensky telefonou para autoridades americanas com um convite específico: que negociadores dos Estados Unidos retornem a Kiev para retomar as discussões trilaterais com a Rússia. "A delegação fará todo o possível nas condições atuais – durante a guerra com o Irã – para vir", declarou o mandatário a jornalistas, demonstrando preocupação com a competição por atenção global.
Na véspera, o líder ucraniano já havia mantido uma conversa que classificou como "positiva" com os negociadores americanos Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump, e Jared Kushner, genro do presidente americano. O diálogo também contou com a participação do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e do senador americano Lindsey Graham, focando em medidas para fortalecer a diplomacia, garantias de segurança e engajamento com nações europeias.
Proposta de trégua e denúncias públicas
Além das ligações diplomáticas, Zelensky tentou colocar o conflito ucraniano sob os holofotes ao propor uma nova trégua temporária a Vladimir Putin. A oferta, conectando explicitamente os acontecimentos no Leste Europeu ao conflito no Oriente Médio, seria limitada às comemorações de Páscoa e focaria na infraestrutura energética – uma tentativa de conter os abalos nos mercados devido às convulsões nos preços do petróleo ligadas à retaliação iraniana.
O presidente russo solenemente ignorou a proposta, mas isso serviu para Zelensky amplificar suas denúncias publicamente. Em telefonema com o papa Leão XIV na terça-feira anterior, ele alertou sobre uma "escalada" russa, referindo-se aos quase 500 drones e mísseis de cruzeiro lançados contra a Ucrânia em plena luz do dia, causando pelo menos seis mortes e cortes de energia generalizados. "Os russos intensificaram seus ataques, transformando o que deveria ter sido o silêncio no céu em uma escalada", afirmou Zelensky. "Esta é a resposta da Rússia à nossa proposta de trégua de Páscoa."
Viagem ao Golfo e acordos estratégicos
Na semana anterior, Zelensky realizou uma visita relâmpago ao Golfo Pérsico, com escalas na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. A jornada não apenas colocou as capacidades militares ucranianas em evidência, mas também demonstrou um aumento significativo na influência geopolítica do país.
Durante a viagem, foram assinados uma série de acordos de segurança que o presidente ucraniano descreveu como "históricos". Os pactos preveem:
- Compartilhamento da experiência e expertise tecnológica da Ucrânia no combate a drones
- Apoio financeiro, fornecimento de energia e investimentos estratégicos das monarquias árabes
- Desenvolvimento de parcerias de longo prazo nos setores de defesa e tecnologia
Essa cooperação é particularmente relevante considerando que as nações do Golfo têm enfrentado dificuldades para se defender contra os enxames de ataques iranianos, enquanto a Ucrânia acumulou experiência significativa nessa área durante seu conflito com a Rússia.
Rússia se beneficia com a distração geopolítica
Enquanto Zelensky busca desesperadamente manter a atenção internacional voltada para a Ucrânia, a Rússia vem colhendo benefícios inesperados com o conflito no Oriente Médio. Apesar de ter no Irã um aliado próximo, Moscou aproveita a distração geopolítica que escanteou o conflito no qual é a agressora.
Os ganhos russos incluem:
- Redirecionamento de armas americanas que seriam destinadas ao Leste Europeu (o Pentágono deve redirecionar cerca de US$ 750 milhões em fundos para reabastecer estoques militares dos próprios Estados Unidos)
- Relaxamento na aplicação de sanções às exportações de energia russas por parte de Washington, devido à necessidade urgente de suprimentos energéticos estáveis
- Disparo nos preços do petróleo e ganho de participação de mercado devido à redução das rotas marítimas
Estima-se que essas vantagens estejam gerando para Moscou até US$ 230 milhões adicionais por dia com exportações, um aumento significativo nas receitas das empresas petrolíferas russas diretamente vinculado às convulsões no Oriente Médio.
O cenário atual apresenta um paradoxo geopolítico: enquanto Zelensky luta para não ser esquecido, Putin ri à toa com ganhos inesperados decorrentes do caos em outra região do mundo. A competição por atenção global tornou-se, ela mesma, um front crucial na guerra prolongada entre Ucrânia e Rússia.



