O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstraram que é possível manter um diálogo amistoso mesmo diante de posições antagônicas, durante o encontro de cerca de três horas na Casa Branca, nesta quinta-feira (7). Esta foi a primeira visita oficial de Lula à residência oficial do presidente americano durante a gestão trumpista.
Coletiva cancelada e novo formato
Inicialmente, estava prevista uma declaração conjunta à imprensa no Salão Oval após o encontro, mas a coletiva foi cancelada sem explicação oficial. Agora, Lula deve falar com jornalistas na embaixada brasileira em Washington. A mudança na ordem da agenda — primeiro a reunião a portas fechadas, depois a conversa com a imprensa — foi solicitada pela delegação brasileira, baseada na experiência da viagem de Lula à Malásia em outubro de 2025, quando a sessão de perguntas antes da reunião bilateral gerou desconforto.
Reação de Trump nas redes
Após o encontro, Trump postou na rede Truth Social elogiando Lula como "dinâmico" e classificando a reunião como "muito produtiva". Ele destacou que discutiram diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. "Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, mais especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa", escreveu. Trump também anunciou que representantes dos dois países terão novos encontros para tratar de pontos-chave da agenda bilateral.
Detalhes da reunião
Lula chegou à Casa Branca por volta de 12h20 (horário de Brasília) e foi recebido por Trump na entrada da residência oficial. O presidente brasileiro estava acompanhado dos ministros Márcio Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Alexandre Silveira (Minas e Energia), Dario Durigan (Fazenda), Wellington César (Justiça e Segurança Pública) e Mauro Vieira (Relações Exteriores). Do lado americano, estavam o vice-presidente J.D. Vance, a chefe de gabinete Susie Wiles, os secretários de Comércio e do Tesouro, Howard Lutnick e Scott Bessent, e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.
A conversa a portas fechadas durou pouco mais de uma hora, seguida por um pequeno tour pelos jardins da Casa Branca, onde Lula e Trump posaram para fotos em frente aos retratos dos presidentes americanos, trocando risadas. Em seguida, almoçaram juntos. O menu incluiu salada de alface-romana, jicama, gomos de laranja e abacate com molho cítrico de entrada; bife grelhado com purê de feijão-preto, mini pimentões-doces e relish de rabanete com abacaxi como prato principal; e pêssegos caramelizados com torta de panna cotta e mel, acompanhados de sorvete de crème fraîche de sobremesa.
Prioridades do Brasil
A gestão Lula tinha duas prioridades no encontro: evitar novas tarifas contra produtos brasileiros e buscar parceria no combate ao crime organizado. A comitiva apresentou um novo plano de combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas, elaborado pelo Itamaraty, Ministério da Justiça, Ministério da Fazenda e Receita Federal. O objetivo era se antecipar à possível designação de facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA, tema sensível após a nova estratégia de contraterrorismo americana, que colocou cartéis de drogas como alvo principal, à frente de grupos jihadistas.
O governo brasileiro temia que tal medida abrisse espaço para interferências americanas em território nacional, como ocorreu com embarcações venezuelanas no ano passado. Além disso, interlocutores de Lula esperavam que o encontro reduzisse a influência da ala bolsonarista sediada nos EUA, liderada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, que teria influenciado o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros em julho de 2025.
Interesses de Trump
Do lado americano, Trump busca reduzir o preço da carne — e o Brasil é um dos maiores produtores globais — além de obter acesso privilegiado às reservas brasileiras de minerais críticos, como terras raras, essenciais para transição energética e alta tecnologia. No entanto, o governo Lula já sinalizou que não pretende ser fornecedor exclusivo de um país. O encontro também pode render dividendos políticos para Trump, reforçando sua imagem de pragmatismo internacional ao lado de um líder de esquerda, em meio a críticas pelo prolongamento da guerra contra o Irã e à competição com a China.
De 'nenhuma relação' ao encontro na Casa Branca
A relação entre Lula e Trump era tensa desde que Trump impôs tarifa de 50% sobre produtos brasileiros em abril de 2025. Lula então declarou que não tinha "nenhuma relação" com Trump e o acusou de agir como "imperador". No entanto, após um breve encontro na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025 e uma conversa telefônica positiva em outubro, as relações descongelaram. O primeiro encontro formal ocorreu em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025, durante a 47ª reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático. A nova reunião vinha sendo negociada desde janeiro de 2026.



