Itamaraty convoca representante dos EUA para esclarecer visita polêmica de assessor de Trump
O Ministério das Relações Exteriores, conhecido como Itamaraty, realizou uma convocação oficial do encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar. O objetivo foi solicitar explicações detalhadas sobre a vinda ao país de Darren Beattie, assessor sênior do ex-presidente norte-americano Donald Trump para assuntos relacionados ao Brasil.
Encontro diplomático e justificativa inicial
Na terça-feira, dia 11, o embaixador Roberto Abdalla, que ocupa o cargo de Secretário de Europa e América do Norte do Itamaraty, recebeu Escobar para uma conversa formal. Durante o encontro, o representante americano afirmou que o principal motivo da viagem de Beattie seria a participação em um fórum internacional sobre terras raras, minerais estratégicos de grande importância econômica e tecnológica.
No entanto, fontes próximas ao governo dos Estados Unidos revelaram que, apesar da confirmação da presença no evento técnico, Beattie tinha planos de priorizar uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, do Partido Liberal. Esses planos foram frustrados quando o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, reverteu uma decisão anterior e vetou expressamente o encontro na prisão.
Falta de comunicação e reação do Itamaraty
Diplomatas brasileiros relataram que o Itamaraty tomou conhecimento da viagem do assessor norte-americano apenas através da imprensa, após a divulgação de que a defesa de Bolsonaro havia solicitado autorização para a visita na cadeia. A ausência de uma notificação prévia por canais diplomáticos formais levou à convocação imediata do representante dos Estados Unidos, em um claro sinal de descontentamento com a quebra de protocolo.
A decisão de Moraes de recuar sobre a autorização para a visita acabou alterando significativamente a agenda de Beattie no Brasil. Mesmo assim, a viagem ao território brasileiro deve ser mantida, com o assessor de Trump ainda programado para se encontrar com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL do Rio de Janeiro.
Contexto da doutrina "America First" e repercussões
Questionada pela TV Globo, a embaixada dos Estados Unidos emitiu um comunicado afirmando que "o conselheiro sênior para Brasil no Departamento de Estado dos EUA e alto funcionário do Departamento de Assuntos Educacionais e Culturais, Darren Beattie, viajará em breve ao Brasil para promover a agenda de política externa America First".
A doutrina "America First", traduzida livremente como "América em Primeiro Lugar", é um plano central do governo de Donald Trump que propõe um reajuste da presença militar norte-americana em escala global para enfrentar ameaças urgentes no hemisfério ocidental. Em documentos oficiais publicados pela Casa Branca, a administração americana também defende a paz através da força, busca reequilibrar o comércio com a China, mantém uma política firme em relação a Taiwan e enfatiza a necessidade de proteger as fronteiras nacionais.
Trâmites diplomáticos atípicos e tensões
O governo norte-americano tentou organizar uma reunião no Itamaraty entre Beattie e o chanceler Mauro Vieira, mas a medida ocorreu de forma improvisada e em cima da hora, conforme relatos de interlocutores envolvidos nas tratativas. O pedido foi feito após a decisão do ministro Alexandre de Moraes e não seguiu o protocolo diplomático habitual: a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil não enviou uma nota diplomática formal, optando por uma consulta via mensagem de WhatsApp, o que foi considerado inadequado.
A repercussão da possível visita de Beattie para se encontrar com Jair Bolsonaro também afetou os participantes do fórum sobre terras raras. Após a divulgação do pedido do assessor de Trump, parceiros do evento procuraram a Amcham Brasil para cancelar a participação, argumentando que o encontro havia adquirido um caráter político excessivo, desviando do foco técnico inicial.
Nos bastidores, a previsão é de que um funcionário da Secretaria de Assuntos Energéticos, Econômicos e Comerciais dos Estados Unidos venha ao Brasil para representar oficialmente o governo americano no fórum, em uma tentativa de normalizar a situação e reduzir as tensões diplomáticas geradas pelo caso.



