Irã elege aiatolá Alireza Arafi como líder supremo interino após assassinato de Khamenei
O Irã elegeu o aiatolá Alireza Arafi como seu líder supremo interino neste domingo, 1º de março de 2026, após o assassinato de Ali Khamenei durante ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel em Teerã na véspera. Arafi, conselheiro próximo do falecido líder, assumirá a chefia do conselho de liderança interino, que comandará o país provisoriamente e supervisionará um processo de transição para substituir oficialmente Khamenei.
Processo de transição e estrutura de poder
O Conselho de Discernimento de Conveniência elegeu o aiatolá Alireza Arafi como membro do conselho de liderança interino, declarou o porta-voz do conselho, Mohsen Dehnavi, em uma publicação na rede social X, anteriormente conhecida como Twitter. O conselho interino, que também incluirá o presidente e o chefe do judiciário iranianos, liderará o país até que a Assembleia de Peritos "eleja um líder permanente o mais breve possível", conforme acrescentou Dehnavi.
Este movimento ocorre em um contexto de tensões regionais acentuadas e incerteza interna, com Arafi enfrentando o desafio de timonear a República Islâmica durante um período crítico. A transição política se dá após os ataques aéreos coordenados que resultaram na morte de Khamenei, intensificando as hostilidades entre o Irã e as potências ocidentais.
Perfil de Alireza Arafi: um clérigo discreto e experiente
Alireza Arafi é um clérigo de alto escalão e uma figura influente de longa data na hierarquia religiosa e política do Irã. Embora seja mais discreto e menos conhecido tanto internacional quanto nacionalmente, ele possui vasta experiência em instituições governamentais e foi um conselheiro próximo de Khamenei.
Atualmente, o aiatolá ocupa o cargo de vice-presidente da Assembleia de Peritos e foi membro do influente Conselho dos Guardiães, responsável pela análise de candidatos a eleições e leis aprovadas pelo parlamento. Ele também chefia o sistema de seminários do Irã, demonstrando seu profundo envolvimento nas estruturas educacionais e religiosas do país.
De acordo com Alex Vatanka, do think tank Middle East Institute, com sede em Washington, D.C., Khamenei tinha "grande confiança nas habilidades burocráticas" de Arafi, evidenciada pela nomeação para cargos importantes e estrategicamente sensíveis. Ainda assim, o clérigo não é considerado um peso-pesado político e não possui laços estreitos com o aparato de segurança, como a Guarda Revolucionária Islâmica.
Diz-se que Arafi entende de tecnologia e é fluente em árabe e inglês, além de ter publicado 24 livros e artigos, conforme destacou Vatanka. Sua habilidade linguística e conhecimento técnico podem ser ativos valiosos em um cenário internacional complexo.
Contexto dos ataques aéreos e tensões nucleares
O ataque a Teerã na madrugada de sábado, 28 de fevereiro, foi uma ação coordenada dos Estados Unidos com Israel, seu aliado próximo e inimigo histórico do regime dos aiatolás. O presidente americano, Donald Trump, confirmou os ataques e afirmou que o objetivo é defender o povo americano e garantir "que o Irã não terá uma arma nuclear".
Em resposta, o Irã disparou contra instalações militares americanas no Bahrein, no Kuwait e no Catar, além de lançar mísseis e drones contra Israel. O Ministério da Defesa catari afirmou que as Forças Armadas do país derrubaram vários mísseis antes que eles alcançassem seu espaço aéreo, embora ainda não haja informações detalhadas sobre possíveis danos.
A ofensiva israelo-americana ocorreu após o fracasso da última rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã sobre um acordo nuclear que controlaria o programa de enriquecimento de urânio da nação persa. Em junho de 2025, os Estados Unidos já haviam bombardeado instalações nucleares e militares iranianas durante o conflito entre Tel Aviv e Teerã.
Na última quinta-feira, representantes dos dois países encerraram seis horas de negociações em Genebra sem avanço concreto sobre a principal exigência americana: o desmantelamento completo do programa nuclear iraniano. Em um relatório reservado a seus 35 Estados-membros, a Agência Internacional de Energia Atômica afirmou que o Irã estocou parte de seu urânio altamente enriquecido em uma área subterrânea do complexo nuclear de Isfahan, no centro do país.
Esta é a primeira vez que o órgão vinculado à ONU especifica o local onde o material com grau de pureza de até 60% estaria guardado, um patamar tecnicamente próximo dos 90% de enriquecimento considerados necessários para a produção de uma arma nuclear. A tensão em torno do programa nuclear iraniano se intensificou após a erosão do acordo firmado em 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global.
Desde a saída unilateral de Washington do pacto, durante o primeiro mandato de Trump, Teerã ampliou progressivamente seus níveis de enriquecimento e reduziu a cooperação com inspetores internacionais. Paralelamente, os Estados Unidos acumularam poderio bélico ao redor do Irã, enviando uma dúzia de caças F-22 para a região, que já contava com dois porta-aviões, 12 contratorpedeiros e três embarcações de combate.
Ao todo, os americanos reuniram sua maior força militar no Oriente Médio desde a invasão ao Iraque, em 2003, criando um cenário de alta volatilidade que Arafi herdará como líder interino. O novo chefe enfrentará não apenas a tarefa de estabilizar o país internamente, mas também navegar por essas complexas relações internacionais e ameaças militares.



