Empresas privadas de Cuba iniciam importação de combustível em meio à crise energética
Cuba: setor privado importa combustível após flexibilização dos EUA

Cuba inicia importações privadas de combustível para enfrentar crise energética profunda

Diversas empresas do setor privado cubano realizaram nas últimas semanas as primeiras importações de combustível para o país, que enfrenta uma crise energética severa que já interrompe serviços básicos e agrava a escassez de produtos essenciais. As informações foram confirmadas pela agência de notícias AFP nesta segunda-feira, 2 de março de 2026.

O movimento ocorre após o governo dos Estados Unidos flexibilizar sua política de restrições e autorizar a venda de petróleo e derivados ao setor privado cubano, desde que esses produtos não sejam destinados a empresas estatais ou controladas pelos militares. A decisão é justificada por Washington como uma medida de "razões humanitárias".

Primeiras cargas chegam ao porto de Mariel

Um empresário cubano, que pediu anonimato, afirmou à AFP ter importado recentemente um isotanque — contêiner utilizado no transporte de combustíveis — a partir dos Estados Unidos. A carga desembarcou no porto de Mariel, localizado a aproximadamente 50 quilômetros de Havana, e já foi transportada para a capital para uso imediato.

"Sem combustível não podemos funcionar", declarou o empresário, que atua no atacado de alimentos e já negocia novas remessas. Apesar do alívio inicial, especialistas do setor privado alertam que a alternativa ainda é limitada por entraves logísticos e financeiros significativos.

Flexibilização americana e contexto político

Na semana passada, o governo de Donald Trump anunciou que permitirá que empresas solicitem licença para revender petróleo venezuelano ao setor privado cubano, mantendo a justificativa de "razões humanitárias". A medida foi formalizada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e busca, segundo Washington, apoiar cidadãos e negócios independentes, em meio a alertas de crise humanitária.

A decisão ocorre após meses de endurecimento da política americana contra Havana. Em janeiro, Trump bloqueou envios de petróleo venezuelano para Cuba após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos. A operação ampliou a tensão regional e agravou ainda mais o desabastecimento na ilha.

Autoridades americanas deixaram claro que a suspensão das sanções pode ser revertida se o combustível acabar beneficiando empresas governamentais ou ligadas às Forças Armadas cubanas. Do lado cubano, o governo acusa os Estados Unidos de praticar um "bloqueio energético" com o objetivo de aprofundar problemas internos e forçar mudanças políticas.

Limitações estruturais e alertas internacionais

Críticos apontam que a volatilidade das importações privadas não é suficiente para compensar a perda dos volumosos embarques de décadas atrás, especialmente diante de obstáculos operacionais e financeiros. Historicamente, quase todo o combustível consumido em Cuba é importado pelo Estado, com a Venezuela como principal fornecedora nas últimas décadas, além do México.

A combinação de sanções americanas ao petróleo venezuelano e da pressão diplomática sobre aliados de Havana reduziu drasticamente esses fluxos tradicionais. No plano internacional, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, alertou para o risco de "colapso humanitário" caso Cuba não consiga importar combustível suficiente para atender às necessidades básicas da população.

A crise energética cubana representa um desafio complexo que envolve fatores políticos internacionais, limitações econômicas domésticas e preocupações humanitárias globais, com o setor privado emergindo como um ator crucial neste cenário de escassez crítica.