Maria Quitéria: Pioneira do Exército há 200 anos e legado para soldados de hoje
Maria Quitéria, pioneira do Exército há 200 anos

Maria Quitéria: A Baiana que Desafiou Séculos para se Tornar Soldado

Em 1822, com o cabelo raspado e vestindo roupas emprestadas do cunhado, uma jovem baiana forjou uma identidade masculina para ingressar no Exército Brasileiro. Ela se tornou o soldado Medeiros, lutando contra as tropas portuguesas nas guerras pela Independência do Brasil. Mesmo após ter sua verdadeira identidade revelada, Maria Quitéria permaneceu na tropa, estabelecendo-se como a única mulher soldado registrada na história militar do país por duzentos anos.

Do Reconhecimento Imperial ao Esquecimento Histórico

Nascida em uma comunidade rural de Feira de Santana, na Bahia, Maria Quitéria cresceu exercendo atividades incomuns para as mulheres do século XIX, como caçar e manusear armas. Sua coragem em combate a destacou em três batalhas em Salvador, culminando em um feito extraordinário: na Batalha de Piatã, ela entrou sozinha em uma trincheira, rendeu soldados portugueses e os conduziu ao acampamento.

O ato heroico rendeu-lhe uma condecoração do imperador Dom Pedro I, que a agraciou com a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. No entanto, ao contrário de seus pares masculinos, ela não foi integrada à corte ou recebeu cargos importantes. Após a guerra, casou-se, teve uma filha e viveu no anonimato em Salvador até sua morte, aos 61 anos, quando foi enterrada como indigente.

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O Apagamento e o Resgate de uma Heroína

A historiadora Márcia Suely, doutora em História e pesquisadora da vida de Maria Quitéria, explica que o esquecimento de sua memória está ligado à subversão que ela representou. "É uma memória mais contida porque ela subverteu as regras, então não é interessante para a sociedade relembrar", afirma. Apesar disso, a Bahia tem trabalhado para resgatar seu legado:

  • Estátua no bairro da Liberdade, em Salvador, inaugurada em 1953.
  • Comenda Maria Quitéria, criada em 1979 pela Câmara Municipal de Feira de Santana.
  • Comenda homônima em Salvador, instituída em 1981.

O reconhecimento oficial do Exército só veio em 1996, quando ela se tornou Patrona do Quadro Complementar de Oficiais. Até hoje, nenhum quartel no país leva seu nome, um contraste marcante com homenagens a figuras masculinas como o Duque de Caxias.

As Mulheres que Seguiram seus Passos

Após o ingresso pioneiro de Maria Quitéria, houve um hiato de 123 anos até que mulheres fossem aceitas como enfermeiras durante a Segunda Guerra Mundial. O avanço significativo ocorreu em 1992, com a admissão das primeiras mulheres na Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército. Em 2017, a primeira turma feminina ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras, tradicionalmente masculina.

Recentemente, dois marcos históricos foram alcançados:

  1. Em março de 2026, 1.010 mulheres se formaram como soldados do Exército e foram incorporadas às fileiras em todo o país, após o alistamento voluntário feminino ser permitido em janeiro de 2025.
  2. A coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho foi indicada para se tornar a primeira mulher general do Exército Brasileiro, cargo que aguarda aprovação presidencial.

A tenente coronel Sílvia Duarte, que ingressou no Exército em 1996, vê esses avanços com otimismo: "Esse ano temos dois marcos muito grandes: as primeiras soldadas e a primeira general. São dois extremos da carreira, um paradoxo muito bonito".

Desafios e Perspectivas Futuras

Apesar dos progressos, o processo de inclusão das mulheres no Exército Brasileiro é considerado lento em comparação com outras democracias ocidentais, como Estados Unidos e França, que aceitam alistamento voluntário feminino há décadas. A nomeação da primeira general em 2026 ocorre mais de um século após a nomeação dos primeiros generais homens.

Para a soldado Luana Fatchinetti, de 18 anos, integrante da primeira turma feminina, a experiência é transformadora: "Somos pioneiras nesse momento, que é um passo tão importante para o Exército Brasileiro e para nós, mulheres". O interesse pelo alistamento voluntário superou expectativas, com mais de 30 mil candidatas em todo o país.

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O coronel Cleidson Vasconcelos, chefe da Seção de Comunicação Social da 6ª Região Militar, em Salvador, ressalta que essa iniciativa "marca um novo capítulo da história e valoriza a representação das mulheres na instituição". O legado de Maria Quitéria, finalmente, encontra eco nas fileiras do Exército, pavimentando um caminho de igualdade e reconhecimento para as mulheres nas Forças Armadas.