A longa jornada até Brasília: da ideia colonial à inauguração em 1960
Em 21 de abril de 1960, Brasília recebeu caravanas de todo o Brasil, autoridades e trabalhadores para uma enorme festa de inauguração. No entanto, a ideia de uma capital no centro do território brasileiro mobilizava autoridades muito antes desse momento histórico, com origens que remontam ao Brasil Colônia.
Origens no período colonial
Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB) Mateus Torres, a proposta de uma nova capital no período colonial estava ligada à preocupação com possíveis invasões ao Rio de Janeiro, que poderiam acontecer pelo mar. A cidade serviu como capital do país de 1763 a 1960, mas já no século 20, o objetivo passou a ser criar mais ligações entre os diferentes estados e regiões do país, aproximando essas áreas do centro de poder.
Para escapar de uma invasão francesa em Portugal, a família real portuguesa mudou-se para o Brasil em 1808, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. De acordo com registros históricos, a proposta de transferir a capital já era discutida por conselheiros do imperador Dom João VI, que temiam invasões ao litoral brasileiro. O jurista Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira e o jornalista Hipólito José da Costa estavam entre os primeiros defensores da ideia.
Continuação após a independência
A ideia persistiu mesmo após a independência do Brasil em 1822. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e registros do Senado Federal, duas figuras eminentes defenderam a transferência da capital. José Bonifácio de Andrada e Silva, ministro das Relações Exteriores, já defendia a mudança antes da independência e, em 1823, propôs à Assembleia Constituinte que a capital fosse transferida para o centro do país, embora a proposta não tenha avançado.
Posteriormente, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em 1877, fez uma expedição para procurar a melhor localização para uma nova capital, defendendo também que fosse construída no centro do país. Varnhagen faleceu em 1878, mas seu trabalho foi considerado fundamental para a futura construção de Brasília.
Ganho de força com a República
Em 1889, com o fim da monarquia e a proclamação da República, a proposta de mudança da capital ganhou destaque novamente. Registros do Arquivo do Senado Federal mostram que, em uma reunião de 13 de dezembro de 1890 para tratar da criação de uma nova Constituição, o senador Thomaz Delphino discursou vigorosamente em defesa da ideia. Ele argumentou, com a gramática da época, que no interior, "na luta com os elementos inhospitos e aggressivos, com os sertões, a civilisação irradiaria com facilidade para todos os pontos".
Os parlamentares debateram os problemas do Rio de Janeiro, como "desorganização" e "insalubridade", e citaram como exemplo a organização das capitais dos Estados Unidos. A nova Constituição de 1891 incluiu a demarcação de uma nova capital no Planalto Central, oficializando a vontade de transferência.
Marcos simbólicos e continuidade constitucional
Em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil, foi erguida a Pedra Fundamental de Brasília em Planaltina, com a presença do presidente Epitácio Pessoa, para oficializar a vontade de transferência estabelecida na Constituição. No mesmo ano, o professor tenente-coronel Barros Fournier apresentou ao Congresso Nacional uma proposta formal defendendo a transferência para o Planalto Central.
Nos anos seguintes, a mudança não saiu do papel, mas manteve-se presente nas discussões constitucionais. Em 1934, durante a elaboração de outra Constituição, o parlamentar Pedro Aleixo destacou que, "apesar de existir dispositivo constitucional determinando a mudança da capital, ficamos mais de 40 anos sem fazer essa mudança". As Constituições de 1934 e 1946 mantiveram a determinação de transferir a capital para o centro do país, demonstrando a persistência da ideia ao longo das décadas.
Concretização com Juscelino Kubitschek
Finalmente, em outubro de 1957, o presidente Juscelino Kubitschek sancionou o projeto de lei que estabeleceu a data de 21 de abril de 1960 para a mudança da capital para Brasília. De acordo com o professor Mateus Torres, o diferencial que fez JK avançar com o projeto foi seu Plano de Metas, programa para acelerar a industrialização do Brasil sintetizado pelo lema "50 anos em 5".
"Ele percebeu que Brasília poderia ser essa meta síntese, desse 'Brasil moderno' que ele queria. Ele queria justamente um Brasil moderno e achava que fazer uma capital nos moldes modernistas, juntamente com arquitetos, engenheiros e urbanistas modernistas, que fizessem essa capital nova, traria esse Brasil novo que ele tanto gostaria de demonstrar para o resto do mundo", explica Torres.
As obras foram iniciadas ainda em 1957 e finalizadas na data estipulada para a inauguração, marcando o fim de uma jornada que começou no período colonial e atravessou séculos de debates, propostas e determinações constitucionais antes de se tornar realidade no coração do Brasil.



