Médico pernambucano relata momento de pânico durante ataques com mísseis no Catar
O neurocirurgião recifense Ulycélio Ferreira e sua esposa, a engenheira química Gabriela da Fonte, vivenciaram momentos de extrema tensão durante uma escala em Doha, capital do Catar, no último sábado (28). O casal presenciou a interceptação de mísseis no céu da cidade, após o Irã retaliar ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra suas instalações.
Alerta de segurança nacional interrompe visita turística
Ulycélio e Gabriela haviam chegado a Doha às 4h30 do sábado, após voo proveniente de Tóquio, no Japão. Eles aproveitariam uma conexão de 22 horas para conhecer a cidade antes de seguir para São Paulo no domingo (1º). Durante visita ao Museu Nacional do Catar, os celulares de todos presentes começaram a emitir um alerta de segurança nacional.
"Minha esposa estava no banheiro e saiu desesperada", relatou o médico. "Um funcionário local explicou que os Estados Unidos e Israel haviam atacado o Irã, que agora retaliaria não apenas contra Israel, mas contra todas as bases militares americanas na região. O aviso mandava que todos ficassem dentro de casa, prédios ou hotéis."
Céu de Doha transformado em cenário bélico
Pouco após o alerta, o casal começou a testemunhar a interceptação de mísseis pelos sistemas de defesa aérea. "Começamos a ver várias interceptações, muitos barulhos, nos deixando bastante assustados", descreveu Ulycélio. "O local da interceptação parecia estar na altura em que um avião voa. Dava para ver o traçado da fumaça, mas aparentava ser um pouco distante da cidade. Você via aquele rastro de fumaça passando e o barulho grande da interceptação."
Apesar do susto, o médico relatou que não houve cenas de pânico generalizado. "As pessoas começaram a ficar meio que sem entender nada, mas também não houve um desespero muito grande, uma evacuação imediata do museu", afirmou.
Fechamento do espaço aéreo e cancelamento de voo
Ao retornarem ao Aeroporto Internacional de Hamad, o casal descobriu que o espaço aéreo do Catar havia sido fechado por tempo indeterminado. Inicialmente, o voo para o Brasil ainda aparecia como mantido, mas ao longo do dia a Qatar Airways informou o cancelamento definitivo.
"A gente voltou para o aeroporto e ficou aquela tensão, aquela incerteza sobre o que iria acontecer", contou Ulycélio. "O voo acabou sendo cancelado, ficamos meio sem informação, mas depois as coisas foram normalizando."
Evacuação e assistência em hotel
O aeroporto foi evacuado e os passageiros realocados para hotéis na cidade. Ulycélio e Gabriela foram levados para um hotel em bairro mais afastado, junto com centenas de outros viajantes.
"Eles evacuaram a gente, trouxeram um grupo gigante de pessoas, foram mais de 50 ônibus", relatou o médico. "Levaram todo mundo para um salão de eventos e começaram a distribuir vouchers, direcionando as pessoas para os hotéis. Estamos aqui nesse hotel desde ontem."
O casal também entrou em contato com a embaixada brasileira no Catar e realizou cadastro para acompanhamento da situação. Eles seguem todas as orientações do governo local e permanecem sob assistência da companhia aérea.
Contexto do conflito e perspectivas de retorno
A escalada entre Estados Unidos e Irã reacendeu o temor de um conflito mais amplo na região. Segundo Ulycélio, os alvos principais têm sido bases aéreas americanas e algumas instalações de infraestrutura local, como a Qatar Energy, produtora de gás natural na zona industrial.
"Os mísseis diminuíram bastante", apontou o médico. "Na primeira noite, 111 mísseis e drones foram interceptados. Apesar da escalada, a situação no local onde estamos é de segurança e tranquilidade relativa."
O casal segue aguardando a reabertura, ainda que parcial ou temporária, do espaço aéreo nos próximos dias. "Acreditamos, pelas informações que filtramos, que nos próximos dias haverá a reabertura do espaço aéreo para conseguirmos embarcar", afirmou Ulycélio com esperança de retornar ao Brasil em breve.



