Irã usa guerra assimétrica para controlar Estreito de Ormuz e petróleo global
Irã controla Ormuz com guerra assimétrica e petróleo mundial

Irã transforma ameaça militar em controle sobre 20% do petróleo mundial

A simples ameaça de instalação de minas marítimas ou de ataques com mísseis ou drones tem sido suficiente para desencorajar companhias de navegação e seguradoras internacionais, concedendo ao Irã um poder desproporcional sobre o comércio global de petróleo. Até 28 de fevereiro de 2026, a república islâmica, com produção diária de aproximadamente 4,5 milhões de barris de petróleo cru e condensados, controlava cerca de 4% da oferta mundial. Após os ataques norte-americanos e israelenses, esse percentual saltou para impressionantes 20% do petróleo global.

Domínio estratégico sobre corredor vital

A chave para esse incremento extraordinário não reside em fatores econômicos ou políticos convencionais, mas sim no domínio militar sobre um corredor marítimo crucial de 150 a 170 quilômetros entre os golfos Pérsico e de Omã: o estratégico Estreito de Ormuz. Situado na margem norte do estreito — enquanto ao sul está Omã, sultanato que historicamente mantém relações amistosas com Teerã —, o Irã possui capacidade para atingir com facilidade embarcações que utilizam essa passagem para escoar a produção petrolífera do Golfo, responsável por um quinto de todo o óleo consumido mundialmente.

A situação foi sintetizada de maneira eloquente na capa da edição de 28 de março da revista britânica The Economist, que mostra um mapa-múndi de papel amassado em formato de funil por uma mão que ostenta um anel com a bandeira iraniana, sob o título revelador "Vantagem para o Irã".

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Primeiro fechamento efetivo do estreito

Embora tenha ameaçado fechar o estreito em ocasiões anteriores, esta é a primeira vez que o Irã adota a medida de forma concreta — alegando que a restrição vale apenas para "nações hostis" como Estados Unidos, Israel e seus aliados. Desde o início do conflito, apenas algumas dezenas de petroleiros receberam autorização para cruzar Ormuz — volume que, em tempos de paz, representa o tráfego de um único dia na região.

Para bloquear efetivamente a passagem pelo local, as forças armadas iranianas não necessitam de grandes recursos dissuasórios convencionais. As características físicas de Ormuz, com profundidade máxima de cem metros e canais de navegação de apenas três quilômetros em cada direção, permitem que o bloqueio seja implementado até mesmo através do uso estratégico de drones, conforme explica Eduardo Svartman, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A sofisticação da guerra assimétrica

Nos estudos especializados de segurança e defesa, o gesto iraniano recebe uma denominação específica: guerra assimétrica. Este termo designa um tipo de conflito armado no qual as estratégias e meios militares das potências envolvidas não apresentam equivalência, caracterizando-se por profunda disparidade de objetivos e recursos entre os beligerantes.

"Apesar de ser uma potência média, o Irã não consegue travar uma guerra em pé de igualdade com os Estados Unidos e, por isso, desenvolveu meticulosamente a capacidade de lutar de forma assimétrica", detalha Svartman, que também é ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

Entre os recursos utilizados pela república islâmica, o pesquisador destaca:

  • Apoio estratégico a forças irregulares como o Hezbollah no Líbano
  • Suporte aos houthis no Iêmen
  • Uso de tecnologias acessíveis como drones para compensar inferioridade bélica

Erros de cálculo expostos

Para Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, o emprego da guerra assimétrica por parte do Irã era completamente previsível diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel. "Cada país usa o que tem disponível. O Irã teve sua soberania atacada, estava preparado para esse cenário e possuía capacidade de impor perdas aos Estados Unidos e aliados muito maior do que esses imaginavam", sustenta o especialista.

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A abordagem bélica adotada pelo Irã, se não chegou a surpreender completamente o governo americano, deixou evidentes os graves erros de cálculo da maior potência militar do planeta. "A máquina de guerra de poder militar absoluto dos Estados Unidos dá a pessoas com pouca capacidade analítica a impressão equivocada de que podem realizar qualquer ação. No mundo contemporâneo de guerras assimétricas e tecnologias emergentes, isso não é mais viável porque a resistência também é facilitada pelo uso desses mesmos recursos", analisa Cortinhas.

Falhas na inteligência norte-americana

Segundo o professor brasileiro, o presidente norte-americano Donald Trump cercou-se de colaboradores cuja principal credencial era a afinidade ideológica com o chefe, não a competência técnica — como exemplificado pelo secretário de Defesa Pete Hegseth. "O processo decisório nos Estados Unidos está completamente caótico", define Cortinhas. Além disso, a inteligência norte-americana parece ter falhado significativamente ao não dispor de avaliação precisa sobre a real capacidade defensiva iraniana.

Svartman oferece perspectiva adicional: "Deve existir uma salinha no Pentágono repleta de planos para lidar com o Estreito de Ormuz desde a Revolução Islâmica. Planejamento militar certamente existe. A questão fundamental é que, enquanto o planejamento militar é essencialmente técnico, a decisão de utilizar o poder militar é intrinsecamente política".

Ambiguidade estratégica e desafios climáticos

Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba, explica que além de compensar a inferioridade bélica, a guerra assimétrica pode servir ao Irã como forma de conferir certa ambiguidade ao conflito. "[A guerra assimétrica] dificulta substancialmente o reconhecimento pela comunidade internacional das ações iranianas como atos formais de guerra", afirma a pesquisadora.

O embaixador aposentado Sérgio Tutikian, com experiência diplomática no Irã, Iraque e Kuwait, alerta para desafios adicionais que forças norte-americanas enfrentariam na região. Se eventuais operações terrestres dos EUA no Golfo forem estendidas até junho, quando se inicia o verão local, as tropas enfrentarão temperaturas extremas de até 50ºC. "Quase todos os países da região apresentam condições climáticas similares, com exceção do Bahrein, de clima relativamente mais ameno. A umidade relativa do ar atinge 100% no verão, causando diversos desconfortos. A própria água do Golfo Pérsico é excessivamente quente", detalha o diplomata.

Entre as localidades do Golfo que Tutikian visitou durante seu serviço na região, destaca-se a ilha iraniana de Kharg, sede de importantes instalações de distribuição de petróleo e cogitada como possível objetivo de invasão terrestre norte-americana. "Quando estive no Irã pela primeira vez, nos anos 1970, a ilha era basicamente um ponto turístico", recorda o embaixador, ilustrando como locais aparentemente secundários transformaram-se em ativos estratégicos vitais no conflito atual.