Coalizão militar liderada pelos EUA visa combater cartéis na América Latina
O governo dos Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump, anunciou formalmente a criação da chamada "Coalizão das Américas de Combate aos Cartéis", uma iniciativa que busca estabelecer uma parceria estratégica com dezesseis países da América Latina. O objetivo declarado é "destruir" os cartéis de drogas que operam no Hemisfério Ocidental, utilizando uma abordagem militar coordenada.
Ordem executiva detalha plano de treinamento e mobilização
Através de uma ordem executiva assinada no último sábado (7), o presidente Trump autorizou o país a "treinar e mobilizar" os Exércitos das nações parceiras, formando o que descreveu como "a força de combate mais eficaz possível". O documento enfatiza a necessidade de desmantelar a capacidade dessas organizações de exportar violência e exercer influência por meio de intimidação sistemática. No entanto, o governo norte-americano não forneceu detalhes específicos sobre como exatamente esse treinamento e mobilização serão implementados na prática.
A ordem executiva também inclui uma cláusula que instrui os países aliados a "manter ameaças externas afastadas", incluindo o que classifica como "influências estrangeiras malignas" provenientes de fora do continente americano. Esse trecho é amplamente interpretado como uma referência direta à China, cuja presença econômica e política na região tem sido alvo de críticas recorrentes pela administração Trump.
Países signatários e a ausência do Brasil
Os dezessete países que integram oficialmente a coalizão são:
- Argentina
- Bahamas
- Belize
- Bolívia
- Costa Rica
- El Salvador
- Equador
- Estados Unidos
- Guatemala
- Guiana
- Honduras
- Jamaica
- Panamá
- Paraguai
- Peru
- República Dominicana
- Trinidad e Tobago
Notavelmente, o Brasil não é um signatário deste acordo. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra preocupação com a possibilidade de que os Estados Unidos classifiquem as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Tal designação poderia, em tese, justificar ações militares unilaterais de Washington em território nacional, sem o consentimento prévio das autoridades brasileiras.
Reunião de cúpula e ações recentes na região
No mesmo sábado (7), o presidente Trump recebeu líderes latino-americanos alinhados com sua política na cidade de Doral, na Flórida, para a primeira reunião de cúpula do grupo denominado "Escudo das Américas". O presidente Lula não foi convidado para o evento. Dias antes, representantes militares da região já haviam se encontrado em Washington D.C., onde o assessor de segurança interna da Casa Branca, Stephen Miller, defendeu que a derrota dos cartéis de drogas exige necessariamente o uso da força militar.
Indícios de cooperação entre os EUA e países latino-americanos no combate aos cartéis já são visíveis. No México, que não aderiu à nova coalizão, uma operação do Exército mexicano em fevereiro resultou na morte de El Mencho, um dos narcotraficantes mais procurados globalmente, com contribuição de inteligência militar norte-americana. No Equador, o Exército bombardeou acampamentos do grupo Comandos de la Frontera, ligado a dissidências das Farc, com participação confirmada dos Estados Unidos. O Pentágono admitiu ter apoiado "ações cinéticas letais" no país sul-americano, sob ordens do secretário de Guerra, Pete Hegseth.
Esforços brasileiros para evitar designação de PCC e CV como terroristas
O governo brasileiro, através do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, está engajado em uma campanha diplomática para impedir que os EUA classifiquem o PCC e o CV como organizações terroristas internacionais. Vieira já solicitou diretamente ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que bloqueie essa medida. A preocupação central é que a designação abra um precedente perigoso, permitindo intervenções militares estrangeiras em solo brasileiro sem autorização.
Apesar dos apelos, o Departamento de Estado dos EUA emitiu um comunicado reafirmando que a administração Trump enxerga essas facções como "ameaças significativas à segurança regional", devido ao seu envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional. O presidente Lula planeja uma visita a Washington D.C. para se reunir com Trump, e o tema deve ser um dos pontos centrais da agenda bilateral. A data exata do encontro ainda está sendo negociada entre os dois governos.
