Presidente argentino encontra-se com Trump enquanto país paralisa contra reforma trabalhista
Em meio a uma greve geral histórica que paralisou a Argentina, o presidente Javier Milei viajou aos Estados Unidos nesta quinta-feira (19) para participar da primeira reunião do Conselho da Paz criado por Donald Trump. O encontro ocorreu em Washington, enquanto as ruas de Buenos Aires amanheciam vazias devido à paralisação convocada pela maior central sindical do país.
Conflitos internos e oferta internacional
Alvo de protestos massivos no próprio país devido à proposta de reforma trabalhista que tenta aprovar no Congresso, Milei utilizou o encontro internacional para oferecer tropas argentinas para atuarem na Faixa de Gaza, caso necessário para o processo de paz. "Colocamos à disposição a colaboração de nossos capacetes brancos", afirmou o presidente argentino, referindo-se à experiência do país em operações de paz da ONU.
O governo argentino já participou no passado de missões internacionais, como na guerra na ex-Iugoslávia nos anos 1990 e no Haiti. Milei destacou ainda sua admiração pela liderança de Trump, afirmando que "a paz duradoura não se constrói sobre consensos que cedem no fundamental".
Greve geral paralisa a Argentina
Enquanto Milei se reunia com o presidente norte-americano, a Argentina enfrentava uma das maiores paralisações de sua história recente. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) convocou a greve geral para coincidir com o início das discussões na Câmara dos Deputados sobre o projeto de reforma trabalhista enviado pelo governo.
As estações de trem Retiro e Constitución, normalmente movimentadas em Buenos Aires, apareceram completamente vazias nas imagens de drone registradas durante a paralisação. O governo Milei reagiu com medidas de segurança incomuns, orientando a imprensa a evitar "posicionar-se entre eventuais focos de violência e o efetivo das forças de segurança".
Protestos e confrontos políticos
Na semana anterior, milhares de pessoas já haviam protestado nas imediações do Congresso quando o projeto foi debatido no Senado. As manifestações terminaram em confrontos com a polícia, resultando em cerca de 30 detidos e uso de gás lacrimogêneo.
O Ministério da Segurança da Argentina emitiu comunicado alertando para situações de "risco" nos protestos esperados para os próximos dias, estabelecendo uma "zona exclusiva" para a imprensa em ruas laterais da praça em frente ao Parlamento.
Principais pontos da reforma trabalhista
O texto da reforma, já aprovado pelo Senado e em discussão na Câmara, representa uma das maiores mudanças na legislação trabalhista argentina em décadas. Especialistas afirmam que a proposta é ampla e faz parte de um pacote maior de mudanças estruturais voltadas à estabilização macroeconômica.
Entre as principais alterações estão:
- Férias flexíveis: Podem ser fracionadas em períodos mínimos de sete dias e negociadas fora do período tradicional
- Restrições a greves: Exige mínimo de 50% a 75% de prestação de serviço em setores essenciais
- Período de experiência ampliado: Até seis meses, podendo chegar a oito ou doze em alguns casos
- Jornada flexível: Ampliação de 8 para até 12 horas diárias, com compensação sem pagamento de horas extras
- Mudanças na negociação coletiva: Permissão para acordos diretos entre empresas e sindicatos locais
- Alterações em indenizações: Redução no cálculo e possibilidade de pagamento parcelado
- Combate à informalidade: Eliminação de multas por falta de registro e criação de mecanismos de regularização
Contexto econômico e expectativas
A reforma não se aplica aos servidores públicos, com exceção das regras sobre greve em serviços essenciais que alcançam áreas como saúde, transporte e segurança. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, referentes ao terceiro trimestre de 2025, o país tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 1 milhão de desempregados, com taxa de desocupação de 6,6%.
A expectativa do governo é que a proposta seja votada no plenário da Câmara em 25 de fevereiro e aprovada até 1º de março, quando Milei abrirá o período de sessões ordinárias do Legislativo. Para garantir apoio político, o governo negociou cerca de 30 alterações no texto original, incluindo a retirada do artigo que permitiria pagamento de salários em moeda estrangeira.
O mercado de trabalho argentino enfrenta desafios significativos, com cerca de 40% dos trabalhadores na informalidade, situação que a reforma pretende enfrentar através da flexibilização de regras e estímulo à formalização.



