Greve geral na Argentina paralisa país e afeta voos no Brasil
A greve geral convocada por sindicatos argentinos contra a reforma trabalhista do presidente Javier Milei paralisou diversas atividades no país nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, gerando tensões políticas significativas e impactando até mesmo o tráfego aéreo internacional, com cancelamentos de voos no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.
Paralisação ultrapassa fronteiras e afeta aeroportos brasileiros
Os efeitos da greve se estenderam além das fronteiras argentinas, causando transtornos em aeroportos brasileiros. No Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, pelo menos 20 voos com origem ou destino à Argentina foram cancelados durante a manhã desta quinta-feira. A concessionária GRU Airport confirmou que 14 voos já haviam sido oficialmente cancelados até as 8h, com um novo balanço previsto para o período da tarde.
Companhias aéreas como Latam e Gol tiveram que ajustar suas operações devido à adesão de sindicatos da Intercargo, empresa responsável pelos serviços de rampa nos aeroportos argentinos, à greve geral. A Latam informou que alguns voos foram cancelados e outros reprogramados, enquanto a Gol confirmou cancelamentos de voos com destino a Buenos Aires, Córdoba, Mendoza e Rosário. Passageiros afetados podem remarcar suas viagens sem custos adicionais ou solicitar reembolso, conforme orientações das empresas.
Confrontos em Buenos Aires e alerta à imprensa
Em Buenos Aires, manifestações foram registradas nos arredores do Congresso Nacional, onde a Câmara dos Deputados iniciou o debate do projeto de reforma trabalhista. A situação lembra os protestos da semana passada, durante a votação no Senado, quando milhares de pessoas se reuniram na região e confrontos com a polícia resultaram em cerca de 30 detenções.
Diante do cenário de tensão, o Ministério da Segurança argentino emitiu um comunicado recomendando que jornalistas evitem se posicionar entre possíveis focos de violência e as forças de segurança. O governo também estabeleceu uma "zona exclusiva" para a imprensa em ruas laterais da praça em frente ao Parlamento, advertindo que as forças policiais agirão diante de qualquer distúrbio. Essa medida foi considerada incomum e gerou críticas de entidades ligadas à liberdade de imprensa.
O que prevê a polêmica reforma trabalhista
A reforma trabalhista proposta pelo governo de Javier Milei integra um pacote de medidas estruturais defendidas pelo presidente ultraliberal, com o objetivo de reduzir custos trabalhistas, estimular investimentos e formalizar empregos em um mercado onde aproximadamente 40% dos trabalhadores estão na informalidade. A expectativa do governo é que o projeto seja votado no plenário da Câmara até 25 de fevereiro e aprovado até 1º de março.
Entre os principais pontos da proposta estão:
- Ampliação do período de experiência para até seis meses, podendo chegar a oito ou doze meses em alguns casos, com indenizações reduzidas;
- Flexibilização da jornada de trabalho, permitindo até doze horas diárias com compensação de horas;
- Mudanças nas regras de demissão e possibilidade de parcelamento de indenizações;
- Restrições ao direito de greve em serviços essenciais, exigindo funcionamento mínimo entre 50% e 75%;
- Flexibilização das férias e alterações na negociação coletiva.
Para viabilizar a tramitação, o governo negociou cerca de trinta alterações no texto original, incluindo a retirada de um artigo que permitiria o pagamento de salários em moeda estrangeira ou por meio de carteiras digitais. A reforma não se aplica a servidores públicos nacionais, provinciais ou municipais, exceto nas regras relativas a greves em serviços essenciais.
Contexto econômico e divisões sociais
Segundo a Pesquisa Permanente de Domicílios do Indec, referente ao terceiro trimestre de 2025, a Argentina tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 1 milhão de desempregados, representando uma taxa de desocupação de 6,6%. Apesar desse índice relativamente estável, o país enfrenta inflação elevada, perda de poder de compra e um forte ajuste fiscal promovido pelo governo.
Desde que assumiu o poder, Javier Milei implementou cortes de gastos públicos e medidas de desregulação econômica que dividiram profundamente a sociedade argentina. Enquanto setores empresariais defendem as reformas como necessárias para recuperar a confiança e atrair investimentos, sindicatos e movimentos sociais acusam o governo de precarizar direitos históricos dos trabalhadores.
A greve geral desta quinta-feira e seus efeitos, inclusive no Brasil, evidenciam a dimensão regional da crise política e econômica argentina, num momento em que o governo tenta acelerar mudanças estruturais sob forte contestação social. A mobilização foi convocada pela Confederación General del Trabajo (CGT), maior central sindical da Argentina, após a aprovação do texto no Senado na semana passada, demonstrando a resistência organizada frente às políticas do governo Milei.



