Um corte orçamentário de R$ 44 milhões nas universidades federais do Rio Grande do Sul, aprovado pelo Congresso Nacional, coloca em risco o funcionamento das instituições de ensino ainda neste ano. A decisão, que retira recursos essenciais, foi classificada pelas reitorias como uma ameaça direta a atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Impacto direto nas maiores instituições
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), maior do estado, foi uma das mais atingidas. A instituição, que possui cerca de 35 mil alunos de graduação e 12 mil de pós-graduação, sofreu uma redução de R$ 14,5 milhões em um orçamento previsto de R$ 200 milhões para 2026. A UFRGS depende de serviços terceirizados para mais da metade de sua limpeza, segurança e portaria, setores que serão imediatamente afetados.
A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, fez um alerta dramático sobre as consequências. "Eu vou ter que fazer escolhas. E as escolhas vão ser cruéis, porque eu vou ter que escolher entre alimentar os estudantes que têm entrado pelas cotas sociais e raciais, ou eu vou alimentar os bichinhos que a gente tem na nossa estação agronômica. Quem é que vai morrer de fome?", questionou.
Serviços à comunidade e pesquisa em risco
O impacto não se limita à UFRGS. Na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), o corte de R$ 3 milhões pode comprometer projetos importantes, como o da Clínica da Família. O espaço, quando finalizado, oferecerá atendimento médico, odontológico e psicológico gratuito para moradores do centro da capital gaúcha, mas sua manutenção está agora sob ameaça.
O pró-reitor de Planejamento e Administração da UFCSPA, Magno Carvalho de Oliveira, afirmou que a universidade já esgotou suas possibilidades de economias internas. "Nós já reduzimos postos de segurança, já reduzimos contratos que poderíamos reduzir, não temos mais espaço para reduzir", declarou.
Em Santa Maria, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foi atingida por um corte de R$ 11 milhões. Já na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a situação é considerada grave. Com as contas no vermelho, a instituição já suspendeu aulas práticas, saídas de campo e ações com a comunidade. Danos causados por vendavais e chuvas recentes aumentaram ainda mais os custos de manutenção. "Estou com três prédios em função de obras de telhado. Dois interditados", relatou a reitora Úrsula Silva.
Corte nacional e futuro incerto
A redução faz parte de um cenário nacional. Ao aprovar o orçamento da União, deputados e senadores retiraram 7% do valor previsto para as universidades federais em todo o país. A reitora da UFPel criticou a medida: "O nosso déficit, ele vai num efeito cascata, uma bola de neve. Eu espero realmente que o Congresso repense essa política, porque o país que quer crescer depende da educação".
A proposta ainda depende da sanção do presidente Lula. Caso o corte seja mantido, as instituições dependerão de uma recomposição de valores pelo Ministério da Educação (MEC). A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, sugeriu que o recurso foi retirado "para engordar as emendas parlamentares que passaram de R$ 50 bilhões para R$ 60 bilhões".
O pró-reitor da UFCSPA, Magno Carvalho de Oliveira, finalizou com um alerta sobre o impacto na ciência nacional: "Hoje, as universidades federais, elas são responsáveis por 90% do que é produzido em pesquisa nesse país. Todo corte orçamentário vai impactar nessa entrega para a sociedade".