Pesquisadora denuncia perseguição ideológica após expulsão de mestrado na UFF
A pesquisadora e influenciadora digital Beatriz Bueno, de 28 anos, foi desligada do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense após nove meses de curso. Formada em Produção Cultural e criadora do perfil Parditudes nas redes sociais, com mais de 30 mil seguidores, ela acusa a instituição de perseguição ideológica devido ao tema de sua pesquisa sobre multirracialidade no Brasil.
O conflito acadêmico e a tese polêmica
Beatriz Bueno detalhou em entrevista os episódios que, segundo ela, culminaram na expulsão. A pesquisadora defende em seu trabalho que pardos não são negros, mas sim mestiços, o que geraria uma vivência identitária distinta. Ela relata que, desde o início do mestrado, enfrentou resistências dentro do programa. "Sempre vivi uma crise de identidade e queria ajudar as pessoas com o conhecimento que estava construindo", afirmou.
O orientador da estudante teria sugerido que ela evitasse abordar abertamente o tema dos mestiços durante o processo seletivo, recomendando uma proposta mais geral para garantir sua entrada no curso. Apesar disso, a polêmica em torno de suas ideias se intensificou progressivamente.
O gatilho: menção em podcast e onda de ataques
A situação dentro do programa teria se agravado drasticamente após o rapper Mano Brown citar Beatriz Bueno em seu podcast, em maio de 2025. Segundo a pesquisadora, começaram a circular acusações de que ela seria eugenista, racista e fascista. "Foi aí que a turma se voltou contra mim e pediu minha expulsão", relatou. Ela afirma que a coordenação do programa, em vez de mediar o conflito, deu voz aos estudantes que exigiam sua saída.
Abandono do orientador e vulnerabilidade acadêmica
Beatriz revela que a relação com seu orientador, que inicialmente a apoiava ciente das resistências que enfrentaria, desmoronou sob pressão. "Ele me abandonou no meio do caminho, pela pressão que sofreu. Fiquei em um lugar de vulnerabilidade", contou. Segundo a ex-aluna, o professor sugeriu que ela precisava "mudar" para se proteger e que essa seria a única forma de concluir a formação.
As reprovações controversas e a "brecha" regulamentar
Quanto aos motivos formais da expulsão, Beatriz Bueno alega que o colegiado utilizou uma "brecha" no regulamento para justificar seu desligamento. "Alegaram que eu reprovei em duas disciplinas. Fui reprovada em uma, de forma super controversa", disse.
Ela relata que uma professora a ameaçou reprová-la por uma falta justificada e, posteriormente, atribuiu nota 3 a seu trabalho final, uma poesia de quatro páginas sobre a ambiguidade da parditude. "Era uma produção artística livre. Não tive chance de recuperação", afirmou. A pesquisadora descreve que, na reunião onde foi anunciada a reprovação e o jubilamento, o colegiado formado por 35 pessoas bateu palmas.
A segunda reprovação ocorreu na Jornada Discente, que exigia 30 horas de presença em eventos. Beatriz argumenta que faltou devido ao clima de hostilidade, mas poderia cumprir as horas até o final do curso, que dura dois anos. Para ela, tratar essa ausência como uma reprovação equivalente à de uma disciplina foi uma manipulação das regras.
A versão da universidade
Em nota oficial, a UFF negou qualquer perseguição ideológica e afirmou que o desligamento "ocorreu com base em normas institucionais, cujos critérios são aplicados a todo o corpo discente". A universidade disse que a decisão foi tomada pelo colegiado com participação da própria interessada e fundamentou-se no "descumprimento de pressupostos previstos no regimento".
A instituição garantiu ter assegurado "o direito ao contraditório e à ampla defesa" e repudiou "quaisquer afirmações que não correspondam aos fatos". A UFF também afirmou categoricamente que não houve qualquer relação entre o desligamento e o tema de pesquisa da estudante.
O caso levanta questões importantes sobre liberdade acadêmica, conflitos ideológicos no ambiente universitário e a aplicação de regimentos internos em situações de controvérsia intelectual.