Justiça suspende concurso em Campos dos Goytacazes por cotas raciais insuficientes
Concurso suspenso em Campos por cotas raciais insuficientes

A Justiça do Rio de Janeiro determinou a suspensão imediata do concurso público do município de Campos dos Goytacazes, localizado na região Norte Fluminense. A decisão judicial, proferida nesta segunda-feira (9) pela 3ª Vara Cível da cidade, considerou insuficiente o percentual de cotas raciais estabelecido no edital do certame.

Percentual considerado insuficiente para a realidade local

O edital em questão reservava apenas 10% das vagas para candidatos autodeclarados pretos, pardos, indígenas e quilombolas. A suspensão atende a uma ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, que argumentou veementemente que este percentual não garante igualdade de acesso às oportunidades públicas.

A defensora pública Carolina Hennig, responsável pelo caso, explicou que a Justiça acolheu integralmente o pedido da instituição. “A juíza acolheu o nosso pedido e suspendeu o concurso público, dando ao município a oportunidade de alterar o edital para retificar esse percentual”, afirmou Hennig.

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Contexto demográfico e histórico

A decisão leva em consideração a realidade demográfica específica de Campos dos Goytacazes. Segundo dados do último Censo do IBGE, o município possui 57% de população negra, além de abrigar a segunda maior população quilombola do estado do Rio de Janeiro.

“Isso é especialmente relevante quando a gente considera a realidade do município de Campos, que tem um histórico profundamente marcado pela escravidão”, completou a defensora pública, enfatizando a necessidade de políticas afirmativas efetivas.

Concurso da Educação com cerca de mil vagas

O concurso suspenso previa aproximadamente mil vagas imediatas, além da formação de cadastro de reserva, todas destinadas à área da Educação municipal. A maior parte das oportunidades era para professores da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com outras disciplinas também incluídas.

A Defensoria Pública destacou que, desde o ano passado, a Prefeitura de Campos vinha sendo alertada sobre a necessidade de ampliar as cotas raciais. As sugestões eram de aumento primeiro para 20% e depois para 30%, em consonância com a legislação federal e jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.

Posicionamento da Defensoria Pública

Carolina Hennig foi enfática ao afirmar que “dez por cento é insuficiente para proteger os direitos da população negra, indígena e quilombola no município de Campos”. A defensora ainda ressaltou que a política de ações afirmativas precisa ser efetiva na prática.

“Nós entendemos que a política de ação afirmativa não deve estar apenas no papel, mas deve ser efetiva para garantir igualdade material e a reparação de uma dívida histórica”, declarou, referindo-se às obrigações do Estado brasileiro e do município com esses segmentos populacionais.

Consequências da decisão judicial

Com a determinação da Justiça, o concurso público permanece suspenso até que o edital seja reformulado. A magistrada estabeleceu que o certame poderá ser retomado mediante:

  • Ampliação do percentual de cotas raciais
  • Reabertura do período de autodeclaração racial
  • Abertura de novas inscrições

Em caso de descumprimento da decisão, a Prefeitura de Campos dos Goytacazes poderá ser multada em R$ 10 mil por dia. A medida busca garantir o cumprimento integral da determinação judicial.

Resposta da Prefeitura de Campos

Em nota oficial, a Prefeitura de Campos informou que ainda não foi oficialmente intimada da decisão judicial, mas que já prepara recurso contra a suspensão. O município argumentou que este é o primeiro concurso da história da cidade a prever reserva de vagas para cotas raciais.

A administração municipal também expressou preocupação com o impacto da suspensão no funcionamento do serviço público e nos milhares de candidatos já inscritos no processo seletivo. O concurso da Educação era aguardado com expectativa para suprir carências na rede municipal de ensino.

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A Defensoria Pública reiterou que a legislação federal e decisões do STF exigem percentuais mais robustos de cotas raciais, especialmente em municípios com significativa população negra e quilombola. O caso em Campos dos Goytacazes ilustra os desafios na implementação de políticas afirmativas no serviço público brasileiro.