A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, foi anunciada de última hora e deve ocorrer na quinta-feira (7/5). Esta será a segunda vez que Lula vai à capital norte-americana em seu terceiro mandato, mas a primeira visita oficial a Trump. O encontro acontece em meio a especulações sobre um possível distanciamento entre os líderes, após ambos terem classificado como "boa química" os contatos anteriores.
Agenda econômica em destaque
O governo brasileiro ainda não divulgou oficialmente os temas da reunião, mas fontes ouvidas pela BBC News Brasil indicam que a equipe econômica tem três prioridades: as investigações sobre o Pix, o fim das tarifas restantes do "tarifaço" sobre exportações brasileiras e investimentos em minerais críticos. A agenda vinha sendo preparada por integrantes dos ministérios da Fazenda, Justiça e Segurança Pública, Relações Exteriores e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A definição final dos tópicos dependerá da "temperatura" da reunião, segundo uma das fontes.
Pix na mira de Trump
A discussão sobre o sistema Pix é um dos pontos mais sensíveis. Técnicos brasileiros tentam dissuadir os EUA de adotar medidas comerciais contra o Brasil por causa do Pix. A investigação norte-americana, baseada na seção 301 da Lei de Comércio, alega que o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central brasileiro prejudica empresas dos EUA. O Brasil respondeu em agosto de 2025, negando discriminação. Em março, o Pix foi citado três vezes no relatório National Trade Estimate Report de 2026, que lista barreiras comerciais de mais de 60 países. Especialistas afirmam que os EUA não têm jurisdição direta sobre o Pix, mas podem retaliar na esfera comercial, suspendendo benefícios ou restringindo importações.
Politicamente, Lula tem usado o Pix como bandeira de soberania nacional. "O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix", disse o presidente em evento na Bahia.
Guerra tarifária
O governo brasileiro quer aproveitar a visita para reduzir tarifas remanescentes sobre exportações. Estimativas do MDIC indicam que 29% das exportações brasileiras aos EUA ainda sofrem tarifas adicionais. Em abril de 2025, Trump impôs tarifa linear de 10% a todos os países; em julho, tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. O episódio gerou mal-estar, mas a situação melhorou após encontros entre Lula e Trump. Em novembro de 2025, parte das tarifas foi retirada; em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA considerou o tarifaço ilegal. Apesar disso, dados da Amcham mostram que as exportações brasileiras para os EUA no primeiro trimestre de 2026 caíram 18,7% em relação ao mesmo período de 2025, somando US$ 7,8 bilhões.
Minerais críticos
Outro tema estratégico são os minerais críticos, como lítio, cobalto e nióbio, usados em baterias, turbinas eólicas e equipamentos militares. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Os EUA querem acesso facilitado a projetos de mineração, enquanto o Brasil defende maior controle estatal e agregação de valor. Os EUA propuseram um memorando de entendimento, ainda sem resposta. Enquanto isso, investimentos norte-americanos avançam, como a compra da Serra Verde pela USA Rare Earths por US$ 2,8 bilhões. O governo Trump também firmou acordo com o governo de Goiás, o que é visto por interlocutores de Lula como tentativa de influenciar a política nacional sobre minerais críticos.



