ONU classifica tráfico de africanos escravizados como crime mais grave contra a humanidade em resolução histórica
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou nesta quarta-feira, 25 de março de 2026, uma resolução histórica que declara o tráfico de africanos escravizados como "o crime mais grave contra a humanidade". O texto, apresentado por Gana, representa um marco significativo no reconhecimento internacional das atrocidades cometidas durante séculos de escravidão transatlântica.
Resolução defende reparações como passo concreto para justiça histórica
A resolução vai além da simples declaração, afirmando explicitamente que as reparações são "um passo concreto para remediar injustiças históricas". O documento exige ainda a "restituição imediata e sem entraves" de bens culturais, incluindo obras de arte e peças de museus, aos países africanos de origem.
O presidente de Gana, John Dramani Mahama, discursou emocionadamente antes da votação: "Hoje, nos reunimos em solene solidariedade para afirmar a verdade e seguir um caminho rumo à cura e à justiça reparadora. A adoção desta resolução serve como uma salvaguarda contra o esquecimento. Que fique registrado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo para a memória dos milhões que sofreram a indignidade da escravidão."
Votação revela divisões internacionais sobre o tema
O resultado da votação mostrou as complexidades geopolíticas envolvendo o tema:
- 123 votos a favor da resolução
- 3 votos contra (Argentina, Israel e Estados Unidos)
- 52 abstenções, incluindo Reino Unido e membros da União Europeia
Justiça reparatória: conceito central da resolução
A resolução da ONU apela para que as nações se envolvam ativamente em práticas de "justiça reparatória", que incluem:
- Pedido de desculpas completo e formal pelos países envolvidos
- Medidas de restituição e compensação financeira
- Programas de reabilitação e satisfação
- Garantias de não repetição das violações
- Alterações às leis, programas e serviços para combater racismo e discriminação sistêmica
Consequências duradouras da escravidão e combate ao preconceito
O documento ressalta as consequências duradouras da escravidão, incluindo a discriminação racial persistente e práticas neocoloniais. Como forma de combater o preconceito, a resolução incentiva os países a promoverem a educação sobre o comércio transatlântico de escravos, criando uma "memória coletiva" para evitar a repetição de tais atrocidades.
Estima-se que mais de 12,5 milhões de africanos tenham sido retirados à força de suas casas e famílias ao longo de quatro séculos de tráfico escravagista. A resolução pede ainda que a União Africana, a Comunidade Caribenha e a Organização dos Estados Americanos trabalhem em conjunto com órgãos da ONU "em prol da justiça reparatória e da reconciliação".
Este marco histórico ocorre em um contexto onde o Brasil, por exemplo, registra recordes de denúncias de trabalho escravo contemporâneo, demonstrando como as heranças do sistema escravocrata continuam a se manifestar em diferentes formas de exploração humana.



