Década de violência: operações policiais na Maré deixam rastro de mortes e violações de direitos
O projeto De Olho na Maré, desenvolvido pela organização Redes da Maré, divulgou dados alarmantes sobre a atuação policial no conjunto de 15 favelas que compõem o complexo. Entre os anos de 2016 e 2025, foram registradas 231 operações policiais que resultaram em 160 mortes e impressionantes 1.538 ações de violência e violação de direitos dos moradores. O levantamento detalha ainda casos de ameaças, tortura e cárcere privado, pintando um quadro sombrio da segurança pública na região.
Impactos devastadores na educação e saúde
Os dados, que integram a 9ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré 2025, vão além das estatísticas de violência direta. O relatório evidencia como as operações afetam direitos básicos da população, especialmente nas áreas de educação e saúde. Conforme a Redes da Maré, esses direitos são "desrespeitados repetidamente" pela dinâmica de confrontos armados.
No campo educacional, as operações causaram o fechamento de 163 dias de unidades escolares públicas. "Isso equivale à perda de cerca de um ano letivo na trajetória educacional de crianças e adolescentes da Maré", destaca o documento. Já na saúde, apenas no ano de 2025, o fechamento por 14 dias de unidades de atendimento resultou em 7.866 acompanhamentos médicos não realizados.
Padrão de violência que se repete
Para a diretora da Redes da Maré e pesquisadora em segurança pública, Eliana Sousa Silva, os números da última década indicam um padrão preocupante. "Existe um padrão de violência que se repete ao longo dos anos e que produz impactos profundos no cotidiano da vida das populações de favelas", afirma. Ela complementa: "Além das mortes e das violações diretas que ocorrem, há um ciclo e a naturalização sobre a interrupção de serviços públicos relacionados aos direitos mais básicos que deveriam ser garantidos".
Em 2025 especificamente, ocorreram 16 operações policiais na Maré, com 12 mortes registradas. Apesar do número menor de operações comparado a 2024 (quando houve 42), a letalidade aumentou em 58%. "Cada operação policial realizada em 2025 teve maior probabilidade de terminar em morte", analisa a organização.
Uso de helicópteros como plataforma de tiro
Um aspecto particularmente preocupante destacado pelo relatório é o uso de helicópteros durante as operações. Das 16 operações realizadas em 2025, em oito houve utilização de helicópteros, sendo que em quatro casos essas aeronaves foram usadas como plataforma de tiros. O trabalho de campo da equipe da Redes da Maré registrou ao menos 308 marcas de tiros espalhadas pelas ruas após as operações.
Tainá Alvarenga, coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, destaca um dado alarmante: "Em apenas uma operação se consegue identificar mais de 200 tiros disparados pelos helicópteros em área no entorno de escolas e clínicas da família". Ela acrescenta que operações com helicópteros tendem a apresentar aumento da letalidade.
Falta de perícias e investigações
Outro ponto crítico revelado pelo monitoramento é a falta de investigações adequadas. Das 160 mortes registradas no período de dez anos, apenas 16 tiveram perícia realizada no local e somente uma resultou em denúncia formal. "O Estado não conseguiu garantir a perícia de local, a preservação da cena de crime e muito menos a denúncia desses casos", afirma Tainá Alvarenga.
Ela critica o discurso oficial que classifica áreas como a Maré como "instáveis", mesmo durante operações com grande contingente policial. "O que a gente vem observando como padrão é a não preservação da cena do crime por esses agentes de segurança presentes nas operações policiais", denuncia.
Impacto na saúde mental e vacinação
As pesquisas da Redes da Maré também mostraram o impacto da violência armada na saúde mental dos moradores. Em parceria com o Unicef, foi comprovada a influência negativa nos indicadores da cobertura vacinal de crianças de zero a seis anos. "Noventa por cento da população da Maré têm a carteirinha da vacina, então está democratizada a importância da imunização. Em dia de operação, a cobertura cai", explica Tainá.
Ela ressalta que, dependendo do período de aulas que a criança perde devido às operações, "isso não vai ser reposto", criando um déficit educacional cumulativo.
Resposta das autoridades
Em nota à Agência Brasil, a Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou desconhecer a metodologia utilizada na pesquisa e a possibilidade de rastreabilidade dos dados. A instituição defende que "atua com base em critérios técnicos, inteligência e planejamento operacional, com foco no cumprimento de mandados judiciais, na repressão qualificada ao crime organizado e na preservação de vidas".
A secretaria acrescentou que todos os casos "são rigorosamente investigados" e que a perícia técnica "integra esse conjunto de medidas". Para a instituição, "quem escolhe o confronto é sempre o criminoso", colocando em risco policiais e moradores. A Polícia Militar não respondeu aos questionamentos sobre os efeitos das operações na comunidade.
Mobilização e esperança
Apesar do cenário desolador, a coordenadora Tainá Alvarenga vê expectativa no horizonte. "A gente vê que é algo que se repete, mas apesar da frustração e da indignação, tem também a esperança de que a mobilização, a geração cidadã de dados, a produção de conhecimento, sobretudo que venha desses territórios, sejam grande mote de enfrentamento do que a gente vê ocorrendo há décadas no estado do Rio", afirmou em entrevista.
O boletim será lançado oficialmente na próxima terça-feira (24) durante o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré, na Areninha Cultural Herbert Vianna. Posteriormente, o documento será encaminhado a diversos órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
A Redes da Maré, organização da sociedade civil formalizada em 2007, tem como missão "tecer as redes necessárias para efetivar os direitos da população do conjunto de 15 favelas da Maré, onde residem em torno de 140 mil pessoas". Seus projetos beneficiam diretamente mais de 7 mil moradores.



