Justiça do Maranhão ordena mudança de nome do Hospital Nina Rodrigues por racismo científico
Hospital Nina Rodrigues terá nome alterado por decisão judicial no MA

Justiça determina alteração de nome em hospital psiquiátrico do Maranhão

O Hospital Psiquiátrico Nina Rodrigues, referência em atendimento de saúde mental no estado do Maranhão, terá seu nome modificado por determinação judicial. A decisão, proferida pela Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, estabelece um prazo de 180 dias para que a mudança seja efetivada, configurando um marco nas discussões sobre memória histórica e reparação racial no Brasil.

Fundamentação da decisão judicial

O juiz Douglas de Melo Martins, responsável pelo caso, baseou sua decisão no reconhecimento do racismo estrutural pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e em tratados internacionais ratificados pelo Brasil. Entre eles, destacam-se:

  • A Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância
  • A Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial

O magistrado argumentou que a manutenção de homenagens a figuras históricas vinculadas a doutrinas eugenistas e racistas contradiz os princípios constitucionais de igualdade e dignidade humana. A remoção de tais símbolos é vista como parte essencial de um processo de reparação histórica, alinhado com políticas públicas antirracistas.

Controvérsia sobre Nina Rodrigues

Raimundo Nina Rodrigues, médico maranhense homenageado na denominação do hospital desde a década de 1940, é reconhecido como pioneiro da medicina e fundador da antropologia criminal no Brasil. No entanto, sua produção intelectual é hoje criticada por basear-se no racismo científico.

Estudos apresentados no processo judicial indicam que Nina Rodrigues defendia teses que:

  1. Classificavam raças como superiores e inferiores
  2. Associavam a miscigenação a processos degenerativos
  3. Propunham códigos penais diferenciados para brancos e negros

Essas ideias, influenciadas pelo psiquiatra italiano Cesare Lombroso, serviram de base para a Teoria do Etiquetamento, que associa determinados grupos populacionais à criminalidade.

Resistência do Estado e processo participativo

O Governo do Maranhão apresentou resistência à mudança, alegando diversos impactos negativos:

  • Prejuízo à identidade institucional do hospital
  • Risco de confusão para a população usuária dos serviços
  • Custos administrativos e operacionais significativos
  • Possível resistência de profissionais e da sociedade

Entretanto, a decisão judicial considerou que esses argumentos não se sobrepõem ao imperativo ético e legal de eliminar símbolos racistas do espaço público. O processo contou com ampla participação social em audiências públicas realizadas em 2024 e 2025, envolvendo:

  • Especialistas e historiadores
  • Juristas e representantes da OAB-MA
  • Movimentos sociais e defensores públicos
  • Parentes de Nina Rodrigues

Juliano Moreira: a nova possível homenagem

O juiz recomendou que o hospital passe a se chamar "Hospital Juliano Moreira", em homenagem ao médico baiano considerado o "Pai da Psiquiatria do Brasil". A escolha final, no entanto, caberá ao Governo do Estado.

Juliano Moreira, que foi aluno e depois colega de Nina Rodrigues, destacou-se por:

  1. Combater as teses racistas de seu antigo professor
  2. Promover a humanização do tratamento psiquiátrico
  3. Realizar estudos internacionais que revolucionaram a compreensão das doenças mentais no Brasil

Sua abordagem inovadora atribuía as degenerações nervosas e mentais a fatores como condições sanitárias, educacionais e doenças infectocontagiosas, e não à miscigenação ou características raciais.

Implementação da decisão

O Estado do Maranhão deverá cumprir as seguintes determinações judiciais:

  • Retirar o nome de Nina Rodrigues de toda a sinalização do hospital
  • Atualizar documentos oficiais e registros administrativos
  • Modificar sistemas de informação e bancos de dados
  • Comunicar formalmente a mudança à população

Esta decisão estabelece um precedente importante para políticas de memória e justiça racial no Brasil, reforçando a necessidade de revisão crítica de homenagens históricas em espaços públicos e instituições.