Indígenas Warao em Maceió reagem a ataque dos EUA e prisão de Maduro
Venezuelanos em Maceió repercutem crise após ataque em Caracas

Explosões que abalaram Caracas na madrugada deste sábado (3) ecoaram com força entre a comunidade de refugiados venezuelanos que vive em Maceió, capital de Alagoas. A notícia do ataque militar confirmado pelos Estados Unidos e da suposta captura do presidente Nicolás Maduro chegou aos indígenas da etnia Warao através de ligações desesperadas de familiares que ainda estão no país.

Notícia da madrugada causa apreensão entre refugiados

Por volta das três horas da manhã, os primeiros telefonemas começaram a tocar. Argênis Mendonza, líder indígena Warao, relatou à TV Asa Branca Alagoas que a comunidade foi surpreendida pela informação. "Recebemos informações por volta de três horas da manhã do que aconteceu no nosso país, na Venezuela. A gente não aguardava essa informação, e nossos parentes estão tristes", afirmou Mendonza.

O contato se intensificou por volta das cinco da manhã, conforme explicou o mediador cultural Dency Alberto. As famílias na Venezuela ligavam para repassar informações em tempo real sobre os acontecimentos. Atualmente, 68 indígenas Warao vivem em um abrigo improvisado no prédio da antiga escola municipal Maria de Fátima Lira, localizada no bairro Benedito Bentes, em Maceió.

Crise humanitária e incerteza sobre o futuro

Além do impacto imediato do ataque, os refugiados expressam profunda preocupação com o agravamento da crise humanitária na Venezuela. Dency Alberto destacou os efeitos práticos da instabilidade: "Estão fechando as fronteiras. Perto da cidade onde moramos, o comércio que vende alimentação não consegue pegar mais alimentos. Não sabemos o que vai acontecer mais pra frente". O sentimento de incerteza é generalizado: "Não sabemos como vai ser o futuro".

A migração em massa de venezuelanos para o Brasil, que teve início em 2018, foi diretamente impulsionada pela crise política e socioeconômica que assola o país. "Passou dois anos sem gasolina na Venezuela, passou também um tempo sem alimento. Temos famílias aqui que imigraram por causa disso", relembrou o mediador cultural.

Reações ambíguas e análise jurídica

Apesar da apreensão, a notícia da prisão de Maduro gerou sentimentos contraditórios entre aqueles que fugiram da crise. "Sofremos lá, saímos e estamos um pouco felizes por causa disso. Ele merece", declarou o líder Argênis Mendonza.

Do ponto de vista do Direito Internacional, a professora Vivianny Galvão, especialista em Direitos Humanos, classificou o episódio como uma grave violação às normas internacionais. "O Brasil condenou, tradicionalmente, e já faria isso porque é uma grave violação ao dever de não intervenção dos Estados. Há um desejo dos Estados Unidos de mudança de regime, isso já foi sinalizado", explicou.

Ela também conectou a instabilidade política diretamente aos fluxos migratórios: "A migração venezuelana deriva dessa instabilidade". Galvão ressaltou o compromisso do Brasil, ao acolher e reconhecer o status de refugiado, de respeitar os princípios do Direito Internacional, especialmente o da não devolução. Isso significa não cessar o asilo "até que a situação que deu origem à migração seja superada, com a retomada da estabilidade política naquele Estado".

A comunidade Warao em Maceió, portanto, vive um misto de esperança por uma mudança e temor por um agravamento da crise que os forçou a deixar seu país, acompanhando de longe e com angústia os desdobramentos dramáticos em sua terra natal.