No cenário gastronômico brasileiro, um nicho antes restrito ganha força e movimenta um mercado promissor: o dos doces inclusivos. Essas sobremesas, criadas para atender pessoas com restrições alimentares, são a base de um negócio de sucesso comandado pelo chef pernambucano Ywri Rafael, que hoje fatura cerca de R$ 45 mil por mês.
Da necessidade familiar a um empreendimento de sucesso
A história da Manuê Confeitaria Inclusiva começou de forma pessoal. Enquanto estudava gastronomia no Paraná, Ywri descobriu que sua mãe havia desenvolvido diabetes. Determinado a permitir que ela voltasse a saborear doces com segurança, o chef retornou a Pernambuco para pesquisar alternativas. O que era uma solução caseira rapidamente se transformou em oportunidade de negócio.
Com um investimento inicial de apenas R$ 70, Ywri começou a assar bolos de macaxeira no forno de casa e a vendê-los nas praias do Recife. A virada aconteceu quando ele migrou para as feiras livres, encontrando o público ideal: pessoas que buscavam opções saborosas, seguras e confiáveis. Em Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife, sua barraca se tornou ponto de encontro aos fins de semana.
A técnica por trás do sabor inclusivo
A lógica da confeitaria inclusiva é adaptar receitas tradicionais, substituindo ingredientes comuns por alternativas acessíveis. Ywri Rafael não utiliza trigo, leite e ovos em suas preparações. No lugar da farinha de trigo, entra a farinha de mandioca. A doçura é obtida a partir da fibra isolada da mandioca, um subproduto que imita o comportamento do açúcar, mas sem elevar os níveis de glicose no sangue.
O chef explica que essa fibra age de forma similar ao açúcar na estrutura e textura das massas. O resultado são bolos, tortas e doces que entregam experiência completa de sabor, equilíbrio e maciez, mas sem os ingredientes restritivos. A produção, que começou artesanal, hoje é estruturada: são cerca de 140 kg de massa por semana e aproximadamente 200 doces prontos.
Gestão familiar e crescimento estruturado
O crescimento acelerado exigiu organização. Foi quando o irmão de Ywri, Kauan Thiago, estudante de contabilidade, entrou como sócio para assumir a parte administrativa. Ele ficou responsável por planilhas, estoque, compras e controle financeiro, implementando uma regra simples: todo gasto com ingredientes ou equipamentos precisa ser alinhado para evitar desperdício.
Essa divisão clara entre criação e administração trouxe estabilidade e permitiu que o faturamento se estabilizasse na marca dos R$ 45 mil mensais. O negócio ganhou forno profissional, máquinas adequadas e uma equipe para acompanhar a demanda, impulsionado principalmente pela indicação boca a boca.
Impacto social e nova fase: a loja física
O impacto do trabalho de Ywri vai além dos números. Muitos clientes retornam após anos evitando doces, enquanto outros encontram na confeitaria uma forma de manter uma alimentação equilibrada sem abrir mão do prazer. Consolidado nas feiras e no delivery, o negócio deu mais um passo: a abertura da primeira loja física.
O espaço foi planejado para ser acolhedor, com inspiração em casa de vó, e conta com uma cozinha de vidro. Essa transparência na produção é fundamental para construir confiança com um público que depende de segurança alimentar. A proposta permanece a mesma: incluir, acolher e entregar doces bonitos, saborosos e, acima de tudo, seguros.
A trajetória de Ywri Rafael prova que, com técnica, propósito e gestão, é possível transformar um desafio pessoal em uma oportunidade de mercado lucrativa, democratizando o acesso ao prazer de uma boa sobremesa.