Casal do Acre transforma design de unhas em negócio próspero e desafia preconceitos
Casal do Acre faz sucesso com design de unhas e quebra tabus

Casal do Acre transforma design de unhas em negócio próspero e desafia preconceitos

Entre esmaltes, lixas, acetona e motores de alongamento, o casal Joas da Silva Rodrigues, de 36 anos, e Maria Raisa de Moura Farias, de 31, encontrou muito mais do que uma simples fonte de renda. Juntos, eles se especializaram como designers de unhas, abriram o próprio estúdio e atendem uma clientela crescente diretamente de sua casa em Rio Branco, no Acre. A decisão de empreender juntos surgiu há três anos, impulsionada pela necessidade financeira e pela escassez de oportunidades de trabalho convencionais.

Da necessidade ao sucesso: uma jornada de perseverança

Naturais de Tarauacá, no interior do estado, Joas e Raisa estão juntos há 17 anos e optaram por se mudar para Rio Branco em 2014. A motivação principal, segundo Raisa, foi financeira, agravada pela chegada do primeiro filho, que tinha apenas um ano na época, e pelo falecimento do pai de Joas. "Nós tínhamos construído nossa casa no terreno do pai dele. Quando ele morreu, a mãe do Joas veio para Rio Branco e vendeu a casa. Então, foi preciso tirarmos nossa casa do terreno, e não havia onde colocá-la, era uma casa de madeira. Isso foi mais um motivo para virmos embora", explicou Raisa.

Após se estabelecerem na capital acreana, o casal decidiu abrir um estúdio de design de unhas na própria residência, localizada na região da Sobral. Raisa iniciou sua trajetória na área ainda na adolescência, aos 15 anos, quando recebeu de Joas, então namorado, o primeiro incentivo. "Eu comecei fazendo um desenho simples na minha unha e todo mundo achou bonito. Então, ele perguntou se eu gostaria de fazer unha e me deu todo o material. Comecei atendendo em domicílio, cobrando R$ 7 por pé e mão", relembrou.

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Superando obstáculos e unindo forças

Raisa destacou que, inicialmente, enfrentou dificuldades financeiras e de conciliação com a gestação para se firmar na profissão após a mudança. De 2014 a 2018, ela interrompeu temporariamente os atendimentos e passou a vender adesivos de unhas, com Joas auxiliando nas entregas. "Foi uma fase difícil. A gente veio só com a fé e a coragem. Eu sentia muita falta da minha família e cheguei a ficar muito abalada. Fiquei uns três, quatro anos só com adesivos, mas chegou uma hora que não estava mais suprindo nossas necessidades", relatou.

O ponto de virada ocorreu em 2019, quando Raisa, com R$ 200 emprestados da mãe, comprou materiais e retomou o atendimento como manicure para complementar a renda. "Nesse período, eu estava sem fazer unhas, só fazendo adesivos, e meu esposo entregava, mas já não estava tendo muita saída dos pedidos. Então, decidi voltar a fazer unhas e, com a procura das clientes por alongamento, decidi entrar nesse ramo. Foi tudo muito difícil no começo, mas eu não desisti", disse.

Joas entra no ramo e quebra tabus

Com a esposa conciliando uma rotina intensa de atendimentos com os cuidados domésticos e dos filhos, Joas decidiu deixar seu emprego formal como apontador de obras e passou a trabalhar como motorista de aplicativo, além de ajudar Raisa nos bastidores. Sua entrada definitiva na área aconteceu em 2022, após um imprevisto no estúdio: Raisa marcou, sem perceber, duas clientes no mesmo horário e pediu a ajuda de Joas para atender uma delas.

De acordo com Joas, a principal dificuldade inicial foi o receio de não se adaptar ao trabalho. "Fui começando por partes, por isso ficou mais fácil. A minha maior dificuldade era a preocupação de atender as clientes com cuidado, de não machucar e também na hora do atendimento, por ser homem, aprender a ter mais delicadeza no procedimento", afirmou. Há cerca de três anos na profissão, ele aprendeu tudo com a esposa e encontrou identificação no ramo. "Eu nunca tinha pensado em trabalhar com isso, mas fui aprendendo ali mesmo. Eu não estou aqui por falta de oportunidade. Sempre tive outras opções, mas hoje me identifico com isso, eu gosto do que faço", comentou.

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Crescimento e conquistas materiais

Foi durante a pandemia da Covid-19 que Raisa decidiu investir no alongamento de unhas, mesmo diante das incertezas e dos materiais caros. O negócio, que começou em um espaço improvisado em casa, evoluiu para um estúdio mais equipado após a compra de parte de um terreno. "Meu esposo vendeu a moto que ele tinha, demos a entrada no terreno e parcelamos o restante. Depois, fomos construindo o nosso estúdio onde estamos hoje. Já conquistamos muitas coisas através das unhas. Compramos terreno, estamos construindo nossa casa e temos um estúdio bem estruturado", disse Raisa.

Desafiando preconceitos e colhendo frutos

Por ser uma área majoritariamente feminina, a presença de Joas como designer de unhas ainda causa estranhamento, especialmente no início dos atendimentos. Segundo ele, o preconceito existe, mas nunca o desmotivou. "Quando eu digo que trabalho fazendo unha, muita gente não acredita. Existe um certo preconceito, mas eu não levo isso para mim. Vejo como uma oportunidade de fazer diferente e também de quebrar esse tabu de que só mulher pode fazer unha", destacou. Raisa complementa: "Hoje elas amam ser atendidas por ele. Muitas dizem que o trabalho dele é excelente, que não perde para ninguém".

Além da renda e estabilidade financeira, o trabalho trouxe mudanças significativas na rotina da família, que hoje tem dois filhos, de 7 e 11 anos. "Hoje a gente trabalha em casa, consegue acompanhar o crescimento dos nossos filhos, levar e buscar na escola. Isso não tem preço", afirmou Joas. Os planos futuros incluem expandir o negócio, abrir uma filial e oferecer mais serviços, como spa dos pés, manicure e pedicure. "Tudo que a gente conquistou foi junto. Começamos do zero. Hoje, tudo que temos veio das unhas", concluiu Raisa.

Determinados a superar estigmas, Joas e Raisa seguem atendendo no estúdio montado em casa, provando que dedicação e parceria podem transformar desafios em oportunidades reais. "Eu não vejo isso como um trabalho inferior. Vejo como uma oportunidade de dar um futuro melhor para nossos filhos. Não existe trabalho inferior. O que existe é dedicação. E foi isso que mudou a nossa vida", finalizou Joas.