O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou oficialmente o modo campanha para as eleições de 2026, e uma de suas principais bandeiras será a redução da jornada de trabalho, incluindo o fim da escala 6x1. A proposta, de grande apelo popular, já enfrenta forte resistência de economistas e entidades patronais, que alertam para impactos negativos imediatos na economia, como uma possível queda do Produto Interno Bruto (PIB) e demissões.
O plano do governo e a promessa de campanha
Revelada pelo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, em artigo no jornal Folha de S.Paulo, a prioridade do Planalto é aprovar o fim da escala 6x1 sem redução de salário. A proposta defendida pelo governo estabelece um regime máximo de cinco dias de trabalho por dois de descanso (5x2).
"Porque todo brasileiro merece ter direito ao tempo, e dignidade não combina com exaustão permanente para quem trabalha", argumentou Sidônio Palmeira. A medida é vista como a grande promessa eleitoral de Lula para 2026, seguindo a estratégia de 2022, quando o petista focou no aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda.
O presidente Lula já manifestou apoio público à ideia. "Não existe um único argumento que possa dizer que a sociedade brasileira não está pronta para isso", afirmou. Ele usou como exemplo a Volkswagen, que no passado tinha mais funcionários e produzia menos veículos. "Por que não reduz a jornada para o trabalhador ficar mais em casa, cuidar melhor da família e estudar um pouco mais?", questionou.
Os projetos em tramitação e os alertas dos economistas
Atualmente, duas propostas sobre o tema tramitam no Congresso Nacional. A mais avançada é do senador Paulo Paim (PT-RS), aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado no fim de 2025. O projeto prevê a redução gradual da jornada das atuais 44 horas semanais para 40 e depois 36, em um período de quatro anos. Antes disso, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) havia apresentado uma emenda com objetivo semelhante.
No entanto, a maioria dos economistas adverte que a implementação abrupta da medida traria consequências severas. Eles preveem que uma redução de jornada "de uma hora para outra" resultaria em uma "monumental queda do PIB". As projeções apontam para aumento dos custos de produção, pressão inflacionária, redução de investimentos e demissões.
O presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), José Roberto Tadros, é um dos críticos. Estudos da entidade indicam que a proibição da escala 6x1 pode elevar as despesas operacionais em até 40%, especialmente para micro e pequenas empresas. Tadros também lembra que o Brasil tem um índice de produtividade quatro vezes menor que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O debate político e os riscos eleitorais
A discussão promete acirrar os ânimos no Congresso, que ainda vive o ressaca de um 2025 marcado por disputas acirradas. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já sinalizaram que desejam um "ano de paz" em 2026. A tendência, segundo avaliações políticas, é que os projetos de Paim e Erika Hilton tramitem em banho-maria, sem avanços significativos antes das eleições.
Para as entidades patronais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a proposta é um "incentivo ao 'nós contra eles'". "Isso não ajuda o diálogo, não ajuda a racionalidade, não ajuda a construção de entendimentos", avaliou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Do outro lado, defensores da redução, como a deputada Erika Hilton, acusam a oposição de usar sempre o mesmo discurso alarmista. "Todas as vezes que se olhou para a classe trabalhadora... o discurso daqueles que sempre mandaram é o mesmo, de que vai destruir o país e a economia", afirmou.
Independentemente do desfecho legislativo, a mera discussão sobre trabalhar menos sem perder renda é vista como vantajosa para a campanha de Lula. A proposta soa simpática para a maioria dos assalariados, ainda que a viabilidade econômica permaneça como um ponto de intenso debate e incerteza.