A proposta de acabar com a escala de trabalho 6 por 1, que permite um único dia de descanso após seis dias laborais, transformou-se em um dos principais cavalos de batalha do governo Lula para a campanha de reeleição em 2026. No entanto, a bandeira erguida pelo Palácio do Planalto esbarra em forte resistência de pesos-pesados do setor empresarial, que alertam para riscos catastróficos à economia, como queda do PIB, inflação e perda de competitividade.
O embate político e os argumentos de cada lado
De um lado, o governo e parlamentares aliados defendem a redução da jornada sem corte salarial, apontando para o apelo popular da medida e o bem-estar do trabalhador. O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, adotou um tom combativo. Em declaração à revista VEJA, ele criticou os opositores da proposta: “Muitos que atacam a proposta teriam uma posição diferente se seus filhos trabalhassem nessa escala. É fácil defender 6×1 para os outros enquanto frequenta jantares com caviar e champanhe”.
Boulos também argumenta que os benefícios superam os riscos, citando uma epidemia de afastamentos por burnout e outros efeitos do excesso de trabalho na saúde mental. Ele acredita que, com a redução do desemprego, será cada vez mais difícil para as empresas contratarem bons profissionais com escalas exaustivas.
Do outro lado, as confederações nacionais da Indústria (CNI) e do Comércio (CNC) soam o alarme. Eles argumentam que a mudança, em um cenário de produtividade historicamente estagnada, poderia agravar a perda de competitividade externa do Brasil. O presidente da CNI, Ricardo Alban, lamenta a polarização do debate: “É um ano eleitoral que já começou há muito tempo, que tende a voltar para o ‘nós contra eles’. Isso não ajuda o diálogo, não ajuda a racionalidade”.
Impactos econômicos e a batalha no Congresso
As projeções sobre os efeitos da medida são um ponto central de discórdia. Em audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, em outubro, especialistas apresentaram estimativas preocupantes. O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da FGV, projetou uma redução imediata de 6,2% do PIB se a jornada máxima semanal cair para 36 horas.
Barbosa Filho ressaltou que, embora seja difícil calcular o ganho de bem-estar com mais lazer, os custos da redução estão sendo subestimados, podendo afetar negativamente a produtividade geral. O professor da USP, José Pastore, foi na mesma linha, apontando a “quase certeza” de a proposta gerar inflação, desemprego e derrubar a arrecadação. Para ele, o caminho deveria ser o da negociação coletiva, e não uma mudança na lei.
No Congresso, a batalha promete ser acirrada. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP), autora de uma das Propostas de Emenda à Constituição (PECs) sobre o tema, reconhece que ainda não há votos suficientes para aprová-la na Câmara. No entanto, ela vê a entrada da máquina governista como fator decisivo para “virar o jogo”, especialmente com a pressão das eleições para constranger parlamentares ligados a setores patronais.
Já o senador Carlos Portinho (PL-RJ), presidente da Frente Parlamentar pelo Livre Mercado, promete fincar trincheira ao lado dos empresários: “Combater essa pauta vai ser prioridade na defesa de quem empreende, gera emprego e produz”.
A questão humana por trás dos números
Além dos gráficos e projeções macroeconômicas, o debate carrega histórias pessoais que ilustram o custo humano de longas jornadas. O senador Paulo Paim (PT-RS), autor de outra PEC pela redução da jornada que tramita desde 2015, conta que problemas de saúde adquiridos em sua época de metalúrgico, com jornadas que iam das 6h às 22h em meio à fumaça, são frequentemente confundidos por médicos com sequelas de tabagismo.
Essa narrativa fortalece o argumento do governo sobre a necessidade de priorizar a saúde e o bem-estar mental dos trabalhadores, colocando-a em choque direto com as preocupações do setor produtivo sobre custos e competitividade. O desfecho dessa disputa, que mistura política eleitoral, economia e direitos trabalhistas, deve definir um dos temas mais quentes do cenário nacional até as eleições de 2026.