O crescimento dos pagamentos digitais e a mudança no comportamento financeiro dos consumidores estão levando grandes empresas brasileiras a expandirem sua atuação para além do varejo tradicional. Em um cenário em que Pix, cartões, TEDs e boletos movimentaram 68,2 trilhões de reais no segundo semestre de 2025, companhias de diferentes setores passaram a enxergar os serviços financeiros como uma nova frente estratégica de receita e fidelização.
Endividamento recorde impulsiona mudança
A tendência ganhou força em meio ao avanço da digitalização bancária e ao aumento do endividamento das famílias brasileiras. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 80,4% das famílias estavam endividadas em março de 2026, maior nível da série histórica, enquanto 29,6% tinham contas em atraso. Nesse ambiente, empresas perceberam que já possuem elementos considerados fundamentais para operar soluções financeiras: grandes bases de clientes, recorrência de consumo, dados de comportamento e canais próprios de distribuição.
Redução da dependência de intermediários
O objetivo agora é reduzir a dependência de bancos e fintechs terceirizadas e capturar parte da rentabilidade que antes ficava com intermediários financeiros. Um dos casos mais conhecidos desse movimento foi o da Magazine Luiza, que adquiriu a Hub Fintech em 2020 para ampliar sua oferta de serviços financeiros integrados ao superapp da companhia. A operação permitiu oferecer conta digital, Pix, cartão físico, transferências e pagamentos diretamente dentro do ecossistema da varejista.
Outros exemplos no varejo
Outro exemplo é a Carrefour Brasil, que expandiu a atuação financeira por meio de cartões próprios, crédito pessoal, seguros, pagamentos e parcelamentos vinculados às redes Carrefour, Atacadão e Sam’s Club. Segundo Letícia Moschioni, sócia fundadora da Finscale, muitas empresas ainda deixam escapar oportunidades importantes ao terceirizar completamente os serviços financeiros. “Muitas companhias já têm a base de clientes, os dados e a recorrência necessários para criar uma vertical financeira, mas ainda enxergam esse movimento como algo distante ou exclusivo das grandes fintechs. Quando a solução nasce conectada à jornada do cliente, ela deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a resolver uma dor real do negócio”, afirma.
Expansão para outros setores
A estratégia deixou de fazer sentido apenas para gigantes do varejo e passou a alcançar empresas de saúde, educação, logística, franquias e plataformas de serviços. Uma instituição de ensino, por exemplo, pode substituir descontos recorrentes por crédito estudantil próprio. Redes de saúde conseguem ampliar acesso a tratamentos via parcelamentos e financiamento. Já companhias logísticas podem antecipar recebíveis e organizar contas digitais para prestadores de serviço.
Controle da experiência e redução de custos
Além da geração de novas receitas, as empresas também buscam maior controle sobre a experiência do consumidor e redução de custos operacionais ligados a meios de pagamento, crédito e inadimplência. O movimento acontece em um momento em que o custo do crédito continua elevado no Brasil. Apesar do corte recente da Selic para 14,5% ao ano, o Banco Central do Brasil mantém postura cautelosa diante das pressões inflacionárias e das incertezas externas, preservando juros ainda altos para consumidores e empresas. Na prática, isso faz com que soluções financeiras integradas sejam vistas não apenas como um produto adicional, mas como ferramenta de retenção, conversão e gestão de risco.
Investimentos de grandes plataformas
O avanço também aparece entre grandes plataformas digitais. O Mercado Livre anunciou investimento de 57 bilhões de reais no Brasil em 2026, incluindo expansão logística e ampliação da carteira de crédito do Mercado Pago, braço financeiro da companhia. Para Letícia, a próxima etapa do mercado será marcada pela “financeirização” estratégica de empresas que já possuem forte distribuição e relacionamento com clientes. “O maior erro é começar pela tecnologia antes de entender o modelo econômico. Uma vertical financeira exige diagnóstico, risco, governança, parceiros corretos e acompanhamento contínuo. Quando isso é bem estruturado, a empresa cria uma receita nova, melhora a experiência do cliente e reduz a dependência de intermediários”, conclui.



