Redução da jornada de trabalho: especialista finlandês adverte sobre riscos econômicos
O debate sobre a redução da jornada de trabalho ganha força no Brasil, com propostas no Congresso para alterar a escala 6×1 e estabelecer um teto semanal de 36 horas. Enquanto trabalhadores buscam equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o setor produtivo e o mercado financeiro expressam preocupações com custos e impactos nas contas públicas. Em meio a essa discussão, o economista finlandês Petri Böckerman, professor da Universidade de Jyväskylä e pesquisador do IZA, oferece uma perspectiva baseada na experiência dos países nórdicos, alertando que jornadas menores não são uma receita automática para o sucesso econômico.
Contexto institucional é decisivo, afirma Böckerman
Segundo Böckerman, a trajetória de países como Finlândia, Suécia e Dinamarca, que operam com semanas próximas de 37 ou 37,5 horas, não revela "milagres econômicos", mas também não confirma previsões alarmistas. O sucesso dessas nações depende de um contexto de alta produtividade, coordenação nas negociações salariais e capacidade de adaptação das empresas. Nos países nórdicos, a redução ocorreu de forma gradual, por meio de negociações coletivas entre sindicatos e empregadores, dentro de um sistema altamente coordenado, e não por imposição abrupta do Estado.
Impactos variam conforme setor e produtividade
Böckerman explica que, em setores baseados em conhecimento, a produtividade por hora foi mantida ou até aumentada após a redução da jornada, graças à reorganização de processos e eliminação de ineficiências. No entanto, em atividades que exigem presença contínua, como saúde ou serviços presenciais, os ganhos foram mais limitados e os custos subiram. Para economias emergentes como o Brasil, com alta informalidade e menor produtividade média, uma redução abrupta pode elevar custos sem contrapartida em eficiência e até incentivar a migração para a informalidade.
Bem-estar melhora, mas emprego não aumenta significativamente
Os impactos sobre o bem-estar são mais claros, com melhora no equilíbrio entre vida profissional e pessoal e redução de estresse e burnout. Contudo, Böckerman destaca que a hipótese de "work-sharing" – dividir horas para criar novos empregos – tem pouco respaldo na literatura econômica. Estudos indicam que o nível de emprego depende mais do crescimento econômico e da demanda agregada do que da simples redistribuição de horas trabalhadas.
Lições para o Brasil: cautela e abordagem gradual
Para o Brasil, a lição é de cautela. Böckerman sugere que uma abordagem gradual, negociada por setor e acompanhada de políticas de aumento de produtividade e qualificação da força de trabalho, tende a ser economicamente mais segura do que uma mudança ampla e imediata. Ele enfatiza que a competitividade dos países nórdicos resulta de fatores estruturais como alta qualificação da força de trabalho, investimento em inovação e instituições estáveis, sendo a jornada mais curta apenas um componente desse arranjo mais amplo.



