Um cenário de juros elevados e instabilidade econômica no Brasil está levando um número crescente de empresas nacionais a buscar abertura de capital no exterior. Com a janela para IPOs (Ofertas Públicas Iniciais) fechada na B3, a bolsa brasileira, companhias de peso estão mirando as bolsas de valores dos Estados Unidos em busca de visibilidade, liquidez e acesso a uma base global de investidores.
Fuga para Wall Street: os nomes por trás do movimento
Nas últimas semanas, a lista de empresas brasileiras com planos concretos de desembarcar em Wall Street ganhou contornos definidos. PicPay, Agibank e Abra, a holding controladora da companhia aérea Gol, revelaram suas intenções de realizar ofertas iniciais de ações nos Estados Unidos.
O PicPay, banco digital controlado pelo grupo J&F e presidido por Eduardo Chedid, deu um passo decisivo ao protocolar o registro para abrir capital na Nasdaq, a bolsa americana de tecnologia. A operação visa captar até 500 milhões de dólares em uma oferta primária, com dinheiro novo entrando no caixa da empresa. A iniciativa já conta com um investidor-âncora: a gestora americana Bicycle sinalizou a intenção de aportar 75 milhões de dólares.
Seguindo a mesma trilha, o Agibank formalizou na quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, o pedido para listar suas ações na Bolsa de Nova York (NYSE). A operação tem gigantes do mercado financeiro internacional, como Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citigroup, atuando como coordenadores.
Por que as empresas estão escolhendo os EUA?
A diferença de escala entre os mercados explica grande parte desse movimento. Enquanto a B3 lista cerca de 414 companhias, a NYSE e a Nasdaq, juntas, concentram mais de 5.000 empresas. Esse mercado mais amplo e maduro oferece maior capacidade de absorver novas captações, sustentar a liquidez das ações após a oferta e formar preços com mais eficiência.
"Nos Estados Unidos, a empresa tem acesso a investidores do mundo inteiro", afirma André Algranti, diretor de novos negócios da Avenue, corretora especializada em investimentos no exterior. "O país concentra praticamente metade do mercado de renda variável global. Então, quando uma empresa faz uma oferta por lá, está pescando em um mercado muito mais significativo."
Além da liquidez, uma listagem em Wall Street amplia a visibilidade internacional e facilita o acesso a investidores institucionais que já compreendem profundamente setores específicos, como fintechs e aviação, permitindo comparações mais justas com concorrentes globais.
Precedentes e a estratégia de internacionalização
Este caminho já foi pavimentado por outras empresas brasileiras nos últimos anos. JBS, Inter e Nubank optaram por listagens fora do país, combinando estratégias de expansão internacional com a busca por uma precificação alinhada aos seus pares globais.
A JBS optou por uma listagem dupla, mantendo operações no Brasil e na NYSE. O Inter migrou sua base acionária para os EUA em 2022 como parte de seu plano de crescimento no mercado americano. Agora, PicPay e Agibank seguem essa tendência, alinhando seus planos de IPO a uma ambição de negócios que transcende as fronteiras nacionais.
E o futuro da B3?
Apesar do atual movimento em direção aos EUA, especialistas não acreditam que o Brasil tenha ficado definitivamente à margem do mercado de capitais. O país já viveu ciclos recentes de forte atividade na B3, com dezenas de IPOs em curtos períodos.
A expectativa é que, com um cenário econômico mais previsível, juros em queda e um custo de capital mais baixo, a bolsa brasileira volte a atrair o interesse das empresas. A B3 aguarda por essa mudança de ventos. Até lá, porém, Wall Street deverá permanecer como a rota preferencial para negócios brasileiros em busca da maior vitrine financeira do mundo.