Magazine Luiza retorna às lojas físicas após década focada no digital
Magazine Luiza volta a abrir lojas físicas após 10 anos

Magazine Luiza anuncia retorno às origens com expansão física após década digital

SÃO PAULO - Após dedicar uma década inteira à construção de um ecossistema centrado nas vendas online, o Magazine Luiza decidiu retornar às suas raízes e retomar a abertura de lojas físicas. O grupo varejista, controlado pela família Trajano, fez o anúncio nesta sexta-feira (13), durante teleconferência de resultados do quarto trimestre, revelando que novos pontos de venda devem ser inaugurados no segundo semestre.

Três anos sem expansão física

Esta será a primeira expansão significativa em três anos, período em que a empresa praticamente não inaugurou novas unidades. A única exceção foi a Galeria Magalu, aberta em dezembro na avenida Paulista, em São Paulo, que reuniu em um único espaço todos os negócios do grupo - incluindo Magalu, Netshoes, Época Cosméticos, Kabum! e Estante Virtual, além de um teatro Youtube e uma cafeteria.

Atualmente, o grupo mantém 1.246 lojas em operação, mas os números revelam uma mudança significativa no comportamento do consumidor. A representatividade do canal digital nas vendas totais do Magalu caiu de 70,6% em 2024 para 68,5% em 2025. Enquanto as vendas do comércio eletrônico recuaram 3,9% no ano passado, o resultado das lojas físicas apresentou crescimento robusto de 5,9%.

Mudança na estratégia de investimentos

"O investimento em abertura de loja vai ganhar proporção maior do capex [capital para investimento] ao longo dos próximos anos", afirmou Fred Trajano, CEO do Magalu, durante a teleconferência. "A gente espera que o capex também seja maior. Quanto menores os juros, menor o custo de capital; não faz sentido manter a taxa neste patamar", completou o executivo, referindo-se à Selic em 12% ao ano, que tem inibido a expansão do varejo.

Trajano reforçou, no entanto, que a empresa mantém sua aposta no ambiente digital, especialmente nas vendas pelo WhatsApp utilizando inteligência artificial conversacional. "Gosto do equilíbrio ecossistêmico entre 1P, 3P e loja", declarou, usando os jargões do varejo digital onde 1P representa vendas de estoque próprio e 3P são vendas de lojistas que integram o marketplace.

Resultados financeiros mistos

As vendas totais do grupo (incluindo de terceiros no marketplace) recuaram 1% em 2025 na comparação com o ano anterior, alcançando R$ 64,7 bilhões. No entanto, a receita bruta do Magalu aumentou 1,9% para R$ 48,2 bilhões, enquanto a receita líquida avançou 1,7%, chegando a R$ 38,7 bilhões.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) cresceu expressivos 10,6% para R$ 3,2 bilhões. Por outro lado, o lucro líquido apresentou queda significativa de 54%, ficando em R$ 204,6 milhões.

Provisão para excesso de estoque

Um dos destaques do balanço foi a provisão de R$ 299,1 milhões no quarto trimestre para lidar com o excesso de estoques, com o objetivo de acelerar a venda de produtos sazonais ou de baixo giro. Segundo a empresa, este foi o caso da categoria de ar-condicionado: houve um excesso de compras baseado na expectativa de aumento de temperatura, mas 2025 se mostrou menos quente do que 2024, apesar das ondas de calor registradas.

Expansão planejada

A expansão física deve ter início no segundo semestre deste ano, com abertura de lojas especialmente no interior do Rio de Janeiro, no Distrito Federal e na zona sul da capital paulista. A empresa também está identificando quais pontos podem ser transformados em novas Galerias Magalu, de menor porte, com dois projetos-piloto já em andamento.

O último ciclo de expansão ocorreu em 2021, quando a empresa chegou ao Rio de Janeiro com a abertura de 50 pontos de venda. Desde então, o Magalu chegou a fechar lojas e fez sua última inauguração em junho de 2023, em Belo Horizonte.

Vantagens do modelo multicanal

A companhia defende que o modelo multicanal acelera suas vendas, além de melhorar a logística, uma vez que as lojas são usadas como pontos de trocas e entregas do canal online. Nas unidades físicas, também é possível aumentar a oferta de serviços financeiros do MagaluPay, especialmente o CDC (Crédito Direto ao Consumidor).

Com novas unidades do modelo Galeria Magalu, a empresa pode explorar as demais marcas do grupo no mesmo espaço, além de favorecer o "retail media" (ações de marketing de fornecedores).

Transformação sob comando de Fred Trajano

Nos últimos dez anos como CEO do Magalu, Fred Trajano acumulou 22 aquisições - antes dele, a empresa criada em 1957 por sua tia-avó, Luiza Trajano, havia feito apenas 10. Desde que assumiu o comando da companhia, transformou o varejo de móveis e eletro em um conglomerado que inclui:

  • Artigos esportivos (Netshoes)
  • Acessórios (Shoestock)
  • Calçados (Zatini)
  • Plataformas de delivery (AiQFome)
  • Conteúdo (CanalTech)
  • Livros (Estante Virtual)
  • Games (Kabum!)

O "ecossistema" do Magalu envolve ainda diversas empresas especializadas em operações online, como Magalog (plataforma que gerencia entregas em tempo real), Magalu Ads (publicidade) e Magalu Pagamentos (antecipação de recebíveis), voltadas aos vendedores que integram o marketplace da varejista.

Raio X do Magazine Luiza

Fundação: 1957
Funcionários: 35 mil
Faturamento 2025: R$ 64,7 bilhões
Presença: 1.246 lojas e 21 centros de distribuição, em 19 estados e no Distrito Federal
Principais concorrentes: Mercado Livre, Casas Bahia, Amazon, Shopee