Bolsa brasileira atinge novo recorde histórico com alta de 3,05% impulsionada por alívio geopolítico
Ibovespa bate recorde com alta de 3,05% e dólar cai para R$ 5,299

Bolsa brasileira atinge novo recorde histórico com alta de 3,05% impulsionada por alívio geopolítico

A Bolsa de Valores brasileira opera em forte alta nesta quinta-feira (22), estendendo o movimento positivo da véspera e sendo embalada pelas discussões envolvendo a possível aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos. O presidente Donald Trump afirmou estar próximo de um acordo sobre a ilha ártica e suspendeu a ameaça de aplicar tarifas sobre oito países europeus, o que foi interpretado como um recuo por parte do líder republicano.

Ibovespa renova recorde histórico pelo quarto dia consecutivo

Às 12h54, o Ibovespa avançava 3,05%, aos 177.084 pontos, a caminho de renovar o recorde histórico pelo quarto dia consecutivo. Na máxima da sessão até aqui, chegou a 177.741 pontos. Na quarta-feira, o principal índice do mercado acionário do país superou pela primeira vez as marcas de 167 mil, 168 mil, 169 mil, 170 mil e 171 mil pontos, demonstrando um vigor impressionante.

Já o dólar recuava 0,38%, cotado a R$ 5,299, refletindo o fluxo positivo de investimentos estrangeiros para o Brasil. O movimento foi lido como um alívio geopolítico após reunião de Trump com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde descartou o uso da força para tomar a ilha, de posse dinamarquesa.

Comportamento de Trump incentiva diversificação de carteiras

O comportamento de avanços e recuos de Trump, já conhecido dos mercados desde o episódio do tarifaço no ano passado, tem incentivado a diversificação de carteiras para fora dos Estados Unidos. Investidores buscam reduzir a exposição à volatilidade dos mercados norte-americanos, movimento do qual os emergentes têm se beneficiado significativamente.

Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos, afirma: "Os investidores passam a revisar risco, reduzir a exposição a mercados supervalorizados e buscar alternativas onde o preço compensa o risco. O dinheiro global não sai do sistema. Ele muda de endereço."

Brasil se destaca por características próprias

Na avaliação de especialistas, o Brasil se destaca por características próprias, como o elevado diferencial de juros — a Selic está em 15% ao ano desde junho passado — e a forte exposição da Bolsa a commodities, como petróleo e minério de ferro. As companhias listadas também seguem com preços atrativos: mesmo com os sucessivos recordes do Ibovespa, o índice ainda opera em múltiplos abaixo da média histórica.

Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, comenta: "O alívio nas tensões geopolíticas incentiva a entrada do estrangeiro na Bolsa. Já imaginávamos que isso iria ocorrer em algum momento, já que a capitalização do Ibovespa é pequena. Qualquer fluxo de capital novo faz efeito, especialmente em um momento de poucas vendas. Vemos esse movimento se estendendo até abril e, depois, quando as eleições começarem a entrar no preço dos ativos, esperamos mais volatilidade."

Entrada de recursos estrangeiros impulsiona câmbio

A entrada de recursos estrangeiros também impulsiona o câmbio, já que os investidores precisam converter dólares em reais para aplicar no mercado local. José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos, escreveu em relatório: "O modelo sugere que o dólar deverá cair em direção a R$ 5,25, atual linha objetivo de queda. Assim, somente compras de curto prazo são recomendadas."

O recuo de Trump em relação à Groenlândia também estimula investimentos em ativos mais arriscados, o que, somado à estratégia de rotação para fora dos Estados Unidos, favorece a Bolsa brasileira como mercado emergente. Os índices acionários na Europa também avançam nesta quinta-feira, com o alemão DAX e o francês CAC 40 registrando ganhos superiores a 1%.

Dados econômicos norte-americanos e expectativas de juros

Os agentes do mercado ainda repercutem dados do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos no terceiro trimestre de 2025. A economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada revisada de 4,4%, o ritmo mais rápido desde 2023. Já os gastos dos consumidores, representados pelo índice PCE e responsáveis por cerca de dois terços da atividade econômica dos EUA, avançaram a uma taxa de 3,5% no terceiro trimestre.

O PCE é a métrica preferida do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) para balizar as decisões de política monetária. O Fed e o BC (Banco Central) brasileiro decidem sobre juros na próxima semana, entre terça e quarta-feira. A expectativa é que ambos mantenham suas taxas de referência inalteradas: os Fed Funds na faixa entre 3,5% e 3,75% e a Selic em 15%.

Contexto adicional: Brasil busca agilizar validação interna de acordo UE-Mercosul

Em um contexto paralelo, o Brasil busca agilizar a validação interna do acordo UE-Mercosul após a Europa congelar o pacto. A decisão do Parlamento Europeu tomada na quarta-feira (21) coloca mais urgência na estratégia brasileira de avançar com velocidade na validação interna, diretriz discutida pelo governo em uma reunião na Casa Civil na véspera da manobra europeia.