O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) solicitou o arquivamento do inquérito que investigava a morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis. De acordo com o órgão, a disseminação de versões não verificadas, vazamentos de informações sigilosas e a condução da investigação pela Polícia Civil contribuíram para uma “fixação precoce e equivocada de autoria”. A informação foi divulgada na terça-feira (12) e antecipada com exclusividade pelo colunista da NSC Anderson Silva.
No parecer de 170 páginas enviado à Justiça, o MPSC detalha cada etapa da apuração e sustenta que não há provas diretas de que o adolescente investigado tenha agredido o animal. Além do pedido de arquivamento, o órgão também solicitou o envio do caso à Corregedoria da Polícia Civil para investigar a conduta de agentes durante a apuração e o possível uso político do caso.
Contradições na investigação
O MPSC apontou que a investigação foi baseada em relatos de “ouvi dizer” e concluiu que os adolescentes investigados não estiveram junto com o animal na região da Praia Brava. Segundo o órgão, a condução da investigação “tolheu possíveis outros desfechos que não envolvessem os jovens” e a falta de exploração de outras hipóteses resultou na perda de provas que poderiam esclarecer o caso.
Um dos exemplos citados é o desentendimento entre o porteiro de um condomínio na Praia Brava e familiares de um dos adolescentes. O MP afirmou que a discussão ocorreu antes da mensagem enviada no grupo sobre as supostas agressões e não teve relação com a morte do cachorro.
“A difusão de versões não verificadas também contribuiu para a fixação precoce e equivocada de autoria, direcionando indevidamente a interpretação dos fatos e afastando outras linhas investigativas plausíveis”, diz o parecer.
Conduta de agentes e possível uso político
O MPSC também questiona o fato de documentos e laudos não terem sido encaminhados integralmente pela corporação após a conclusão do inquérito. Outro ponto destacado é a divulgação indevida de informações sigilosas envolvendo adolescentes investigados. O caso foi encaminhado à 9ª Promotoria de Justiça da Capital, responsável pela área da infância e juventude, para apurar possível infração administrativa relacionada à exposição de dados protegidos à imprensa.
Os promotores citaram manifestações públicas de autoridades, incluindo uma publicação feita pelo governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, durante a investigação. Na postagem, ele afirmou que as provas do caso “embrulharam o estômago”. Segundo o MP, a declaração “indica possível acesso a informações sigilosas do processo e contribuiu para ampliar a repercussão e os ataques nas redes sociais”.
Erro na análise de imagens
No inquérito e num vídeo postado nas redes sociais, a polícia afirmou que, com base em imagens de duas câmeras de segurança, o cachorro e o adolescente permaneceram na praia de forma simultânea por aproximadamente 40 minutos na madrugada de 4 de janeiro de 2026, e que a agressão teria ocorrido nesse período. No entanto, a polícia não levou em conta uma diferença nos registros de horário das câmeras.
Com a correção da defasagem, a interpretação da polícia não se sustenta. “Verificou‑se que, nos instantes em que o adolescente esteve nas imediações do deck, o cão se encontrava a cerca de 600 metros de distância. Dessa forma, não se sustenta a tese de que ambos tenham compartilhado o mesmo espaço por aproximadamente 40 minutos, como afirmado nos relatórios policiais”, disse o MPSC.
O que diz a Polícia Civil
A Polícia Civil de Santa Catarina informou que concluiu as investigações relacionadas ao caso e realizou, oportunamente, a divulgação oficial das medidas adotadas no âmbito do inquérito policial. Após a conclusão do procedimento, os autos foram encaminhados ao Ministério Público de Santa Catarina, órgão constitucionalmente responsável por eventual oferecimento de denúncia ou arquivamento. A Polícia Civil e o MPSC atuam de forma independente, dentro das atribuições previstas na legislação. Assim, eventuais manifestações sobre a decisão de arquivamento do caso competem exclusivamente ao Ministério Público.
O g1 entrou em contato com o Governo de Santa Catarina, mas o órgão não se manifestou até a última atualização desta reportagem.



