O artigo do economista Milton Friedman no The New York Times, em 1970, defendia que o único papel social de uma empresa é gerar lucro. Meio século depois, o capitalismo incorporou novas camadas a esse princípio. Resultados financeiros continuam importantes, mas agora convivem com métricas de impacto social e ambiental. Essa mudança é sintetizada na sigla ESG — meio ambiente, social e governança —, difundida a partir do relatório Who Cares Wins de 2004, do Pacto Global da ONU.
No Brasil, o “S” de pessoas e comunidades concentra grande parte dos investimentos sociais privados. O Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC), do centro de estudos Comunitas, mapeia esses recursos. A edição mais recente identificou 6,2 bilhões de reais desembolsados por 337 empresas e 22 fundações em 2024, valor que dobrou desde 2009. Esse avanço reflete uma mudança na forma de atuação das companhias.
Parcerias com startups e ONGs
Assim como os departamentos de P&D incorporam startups, as áreas de ESG passaram a recorrer a aceleradoras, incubadoras, fundos de capital semente e organizações da sociedade civil para ampliar o alcance de suas iniciativas. A Ambev, por exemplo, criou o Bora Hub após a pandemia, plataforma que reúne programas de geração de renda e apoio a pequenos empreendedores, especialmente nas periferias. Desde 2022, impactou 1,5 milhão de pessoas, com meta de 5 milhões até 2032. As ações incluem qualificação, treinamento em gestão e acesso a recursos, em parceria com ONGs, governos locais e startups como a Afreektech.
“Nossos projetos têm grande envolvimento de organizações que conhecem a realidade local”, afirma Laura Aguiar, diretora de impacto e relações com a sociedade da Ambev.
Jardim Ângela: exemplo de articulação
No Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, o empreendedor social Marcelo Rocha (DJ Bola) fundou a produtora A Banca em 1999, focada na formação de jovens para o mercado musical. Em 2018, com a Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), criada com a ONG Artemisia e o FGVcenn, a iniciativa ganhou estrutura de startup. Já resultou em 105 negócios apoiados e 756 mil reais em capital semente, credenciais que a levaram ao programa BNDES Periferias. “Nosso objetivo é romper o ciclo de pobreza financeira”, diz Rocha.
Crédito e educação: iFood e o “S” do ESG
O acesso ao crédito é foco da agenda ESG do iFood, impulsionado pelo banco digital iFood Pago, criado em 2023. O braço financeiro já liberou cerca de 3 bilhões de reais em antecipação de recebíveis e capital de giro. “63% dos atendidos tiveram crédito negado em bancos convencionais”, afirma Luana Ozemela, vice-presidente de impacto e sustentabilidade. A empresa também investe em educação: curso de quatro meses, desenvolvido pela startup Educ Pay, que contribuiu para a aprovação de 68% dos 80 mil inscritos no Encceja.
Startups aceleradas: casos de sucesso
Miller Vieira, sócio da Lanup RH, participou da aceleração da Anip em 2023. O aplicativo de gestão de equipes terceirizadas, presente em bares e restaurantes, usou o capital semente para homologação no Ministério do Trabalho. A carteira de clientes cresceu, incluindo redes como Bob’s e eventos como Rock in Rio. A plataforma já processou 50 milhões de reais em salários para 100 mil profissionais.
Luana Barbosa, ativista trans pernambucana, fundou a Pajubá Tech em 2022, inicialmente como associação de formação em tecnologia. Transformou-se em startup de impacto social com o Pajú Zap, chatbot que recebe denúncias de violações de direitos LGBTQIAPN+. Fundos internacionais aportaram 10 mil dólares para expansão. O próximo passo é atrair empresas brasileiras interessadas em combater a transfobia em escala nacional.
Exemplos como esses mostram que o “S” do ESG saiu dos relatórios corporativos para ganhar espaço no mundo real.



