Empresa sul-coreana pede falência com apenas R$ 109 em caixa e acumula dívida bilionária
A Posco Engenharia e Construção do Brasil, subsidiária da gigante sul-coreana Posco Eco & Challenge, declarou autofalência em agosto de 2025 com uma situação financeira alarmante: apenas R$ 109 em conta corrente e dívidas que ultrapassam R$ 644 milhões. O caso, que envolve acusações de tentativa de calote milionário, gerou cancelamento de audiência pública na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara dos Deputados.
Cancelamento de audiência e acusações de fraude
A audiência pública marcada para esta quinta-feira (12) foi cancelada na noite anterior sem nova data prevista. O debate buscaria esclarecer:
- O impacto fiscal para o Ceará e para o Brasil
- Prejuízos sofridos por empresas brasileiras credoras
- Movimentação financeira da Posco Brasil
- Possíveis irregularidades no pedido de falência
O deputado federal Luiz Gastão (PSD), autor do pedido da audiência, alertou que a dívida total pode chegar a R$ 1 bilhão, incluindo obrigações trabalhistas, tributárias e comerciais. Credores formaram a Associação Internacional de Credores da Posco e entraram na Justiça para barrar a falência, alegando fraude e planejamento para evitar pagamentos.
Histórico da empresa e obra bilionária
A Posco Brasil foi criada em 2011 especificamente para atuar na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) em São Gonçalo do Amarante (CE), um projeto de R$ 5,4 bilhões executado entre 2013 e 2018. Como empresa nova no território brasileiro, terceirizou praticamente todos os serviços - da terraplanagem à locação de equipamentos.
O problema começou quando parte das empresas contratadas não recebeu pagamento integral pelos serviços prestados, levando a múltiplas ações judiciais ainda durante as obras. Este imbróglio jurídico culminou no pedido de falência aceito pela 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza em setembro de 2025.
Patrimônio declarado versus dívidas acumuladas
No pedido de falência, a empresa apresentou um quadro financeiro mínimo:
- Saldo em conta corrente: R$ 109
- Ativos disponíveis: aproximadamente R$ 11 mil
- Um carro avaliado em R$ 70 mil
- Terreno em São Gonçalo do Amarante comprado por R$ 1,6 milhão
Contrastando com este patrimônio, as dívidas declaradas superam R$ 644 milhões, distribuídas em:
- Dívidas trabalhistas (com outras empresas): R$ 573 milhões
- Dívidas tributárias (Fazenda Nacional e Receita Federal): R$ 33 milhões
- Dívidas quirografárias (com outras empresas): R$ 10,4 milhões
- Dívida intercompany (empréstimos com controladora sul-coreana): R$ 26,6 milhões
Credores diversificados e questionamentos
A lista de credores inclui desde pequenas empresas brasileiras até órgãos públicos como INSS e Receita Federal, além de ex-funcionários brasileiros e sul-coreanos residentes no Brasil. Há empresas credoras de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia e Rio Grande do Norte.
Segundo o deputado Luiz Gastão, credores suspeitam que a empresa enviou recursos ao exterior e questionam a lisura do processo de falência. O requerimento da audiência cita indícios de subavaliação das dívidas tributárias, que poderiam superar R$ 200 milhões, e menciona que Fazenda Nacional, Receita Federal e INSS já contestaram valores apresentados pela Posco.
Consequências jurídicas e próximos passos
Com a falência aceita pela Justiça, todas as cobranças contra a Posco Brasil ficam sustadas. O próximo passo é a compilação dos valores pela Justiça e criação de um plano de pagamento. Advogados da empresa alegaram em seu pedido que "não há qualquer perspectiva de solução do endividamento, ante a inexistência de novos recursos e insuficiência de ativos".
Em novembro de 2025, foi publicado edital com o processo de liquidação do patrimônio da empresa. Apesar dos recursos dos credores, o caso segue na primeira instância, enquanto a Associação Internacional de Credores da Posco continua sua batalha judicial para barrar o que consideram uma tentativa organizada de calote milionário.



