Economia peruana em 'modo zumbi': instabilidade política impede crescimento maior
Economia peruana em 'modo zumbi' por instabilidade política

Economia peruana em 'modo zumbi': instabilidade política impede crescimento maior

O Peru, que realiza eleições presidenciais neste domingo (12), construiu ao longo dos anos uma reputação de fortaleza macroeconômica admirável na América Latina. Apesar da permanente instabilidade política e das constantes mudanças de presidente nos últimos anos, o país manteve suas contas públicas saneadas, atraiu investimentos estrangeiros significativos e preservou a estabilidade da sua moeda, o sol.

As bases da fortaleza e o preço da instabilidade

A economia peruana conta com pontos fortes estruturais que a beneficiaram historicamente. Trata-se de uma economia aberta que oferece segurança jurídica aos investidores, com uma das moedas mais estáveis da região. Um fator fundamental é a gestão técnica e autônoma do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP), que se mantém à margem das disputas políticas.

Porém, especialistas alertam que nem tudo o que reluz é ouro. "Esta questão de que a economia e a política do Peru andam por cordas separadas é uma meia verdade. Existe um ponto a partir do qual a política afeta a economia", explica o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais. Para ele, o Peru possui há tempos "uma economia que caminha em piloto automático, em modo zumbi".

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Oportunidades perdidas e crescimento abaixo do potencial

Nas duas primeiras décadas do século 21, o Peru viu seu Produto Interno Bruto (PIB) crescer em cerca de 4% ao ano, chegando a superar 10% em alguns períodos. Mas o ritmo vem diminuindo desde 2018, com a renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski, que iniciou uma caótica sucessão de oito presidentes.

Ignorando os anos da pandemia, a economia peruana cresceu em média cerca de 2,3% desde 2022, índice considerado abaixo do seu potencial. "A economia peruana continua crescendo, mas existe um custo de oportunidades perdidas", afirma Mendoza. "Se tivéssemos políticas sustentadas, não estaríamos crescendo em 3%. Provavelmente, estaríamos crescendo em níveis de 5 ou 6%."

Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia e membro da diretoria do BCRP, reforça: "Com os preços internacionais atuais e a macro estabilidade que vivenciamos, não há motivo para não termos crescido mais de 4,5%, se nossos governos tivessem sido razoavelmente previsíveis e competentes".

O preço do 'carrossel político'

Quando o Peru entrou no "carrossel político" dos últimos anos, "passou a ser impossível ter políticas econômicas sustentadas", segundo Mendoza. Macera recorda que "os presidentes, em média, não chegaram a ficar dois anos no cargo". O atual presidente, José María Balcázar, foi eleito pelo Congresso em fevereiro, substituindo José Jerí, que foi destituído depois de pouco mais de quatro meses.

Se os presidentes duram pouco, menos ainda os ministros. "Um ministro da Economia dura hoje, em média, sete ou oito meses", destaca Macera. "Com esta volatilidade, é muito complicado ter políticas de Estado razoavelmente consistentes e fazer com que o setor privado saiba com clareza quem são seus interlocutores dentro dos ministérios."

Impactos econômicos e sociais concretos

Para setores que exigem grandes investimentos e anos de planejamento, como a mineração (um dos principais da economia peruana), saber quais serão as políticas futuras é fundamental. "Como você pode fazer um planejamento se os ministros e suas equipes mudam a cada poucos meses?", questiona Macera.

O exemplo mais claro do preço pago pela instabilidade política foi 2023, quando o então presidente Pedro Castillo foi destituído e preso por tentativa de golpe de Estado, gerando protestos em todo o país. Naquele ano, a economia peruana se retraiu em 0,55%.

Apesar dos anos de crescimento, o país não conseguiu retornar aos níveis de pobreza e emprego formal anteriores à pandemia. Em 2019, 20% dos peruanos viviam em situação de pobreza, índice que atingiu 27,6% em 2024. A renda real formal em 2024 também não retornou aos níveis de 2019.

Corrupção e criminalidade organizada

Todas as pesquisas indicam que os peruanos consideram a corrupção um dos principais problemas do país. A vida política peruana foi marcada, nos últimos anos, por escândalos que custaram o cargo de quase todos os últimos mandatários.

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Mendoza lamenta que "segmentos significativos do Estado tenham sido capturados e depredados pelas máfias". Para ele, "já não se trata apenas da corrupção tradicional, mas da criminalidade vinculada ao crime comum".

As atividades delituosas trazem impactos econômicos diretos. "Existe uma ampla agenda pendente de combate à mineração ilegal", segundo Macera. "Calculamos que, no ano passado, tenha havido cerca de US$ 11,5 bilhões de exportação ilegal de ouro, um número similar ao exportado pela agroindústria peruana em 2014."

Perspectivas e desafios futuros

O Banco Central peruano calcula que o PIB do país irá crescer em cerca de 2,9% este ano, o que colocaria o Peru como a segunda economia com maior crescimento do continente. O país continua se beneficiando dos altos preços dos metais, da estabilidade da sua moeda e da solidez das suas contas públicas.

Porém, todas as previsões estão à mercê do que vier a acontecer com a guerra no Oriente Médio, que já provocou aumento dos preços do petróleo e poderá causar recessão mundial.

Outra medida importante será a renovação da diretoria do Banco Central peruano este ano. "O Banco tem grande independência nas suas operações, mas a escolha dos membros da diretoria dependerá do novo presidente e do novo Congresso", indica Macera. Ele espera que haja consenso para manter Julio Velarde como presidente do Banco Central, à frente da instituição há 20 anos e considerado uma das garantias da solidez macroeconômica peruana.

Os governantes que sairão das urnas terão o desafio de fazer com que a economia peruana abandone seu "modo zumbi" e passe a trabalhar a todo vapor, em prol da coesão social e do progresso dos seus cidadãos, superando finalmente o ciclo de instabilidade que tem limitado seu potencial de desenvolvimento.