Dólar registra queda significativa com anúncio de trégua entre EUA e Irã
O dólar comercial encerrou esta quarta-feira (8) com uma queda expressiva de 1%, sendo cotado a R$ 5,102. Este movimento ocorreu após os Estados Unidos e o Irã firmarem um cessar-fogo de duas semanas no conflito que assola o Oriente Médio. A trégua, que também prevê a reabertura do estratégico estreito de Hormuz, trouxe alívio aos mercados financeiros globais, revertendo parte da aversão ao risco observada nas últimas semanas.
O valor de fechamento representa o menor patamar desde 7 de maio de 2024, quando a moeda norte-americana terminou o dia a R$ 5,071. Durante a sessão, o dólar chegou a atingir uma mínima de R$ 5,065, registrando uma queda intradiária de 1,73%. O movimento acompanhou o exterior, onde o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, recuou 0,85%, ficando em 99 pontos.
Bolsa brasileira atinge novo recorde histórico em meio a maior apetite por risco
Em um cenário de maior apetite por ativos de risco, a Bolsa de Valores brasileira (B3) encerrou o dia em um novo recorde de fechamento, com alta de 2,09%, alcançando 192.201 pontos. Durante o pregão, o índice também bateu um novo recorde histórico intradiário, chegando aos 193.759 pontos. A valorização ocorreu apesar da forte queda nos preços do petróleo, que pressionou as ações de empresas do setor energético.
Às 17h, os contratos futuros do petróleo Brent, referência global, despencavam 11,72%, cotados a US$ 96,53 o barril. Já o barril de WTI (West Texas Intermediate), padrão norte-americano, registrava uma queda ainda mais acentuada de 14,77%, negociado a US$ 96,30. Este recuo impactou diretamente o pregão brasileiro, com o setor petrolífero apresentando quedas generalizadas.
As ações preferenciais da Petrobras caíram 4,31%, enquanto as ordinárias recuaram 3,91%. Outras empresas do setor, como Prio, PetroRecôncavo e Brava Energia, também tiveram desempenho negativo, com quedas de 5,48%, 2,90% e 2,86%, respectivamente.
Acordo de cessar-fogo no Oriente Médio é o principal catalisador dos mercados
O principal fator por trás da movimentação dos mercados foi o anúncio da trégua na guerra do Oriente Médio. Após declarações inflamadas, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aceitou na terça-feira (7) uma proposta mediada pelo Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas no conflito iniciado em 28 de fevereiro por EUA e Israel.
Em uma postagem na rede social Truth Social, Trump afirmou que sua decisão se baseou no compromisso do Irã em reabrir o estreito de Hormuz durante o período da trégua. Teerã confirmou que o fará por duas semanas, "em coordenação com as Forças Armadas" iranianas. "Esse será um cessar-fogo duplo", escreveu Trump, buscando acalmar os ânimos dos países árabes sob ataque no golfo Pérsico.
O ex-presidente norte-americano justificou a medida afirmando que os objetivos militares já haviam sido "atingidos e excedidos", e que busca um "acordo definitivo de paz de longo prazo com o Irã e paz no Oriente Médio" nestes quinze dias.
Especialistas analisam reversão no comportamento do mercado
Desde o início do conflito no Oriente Médio, o dólar e os prêmios de ativos de renda fixa vinham se valorizando devido à maior busca por proteção por parte dos investidores. "Desde o início do conflito, vimos poucas sessões de apetite por risco e muitas de aversão, diante das incertezas relacionadas ao aumento da inflação, à disrupção das cadeias globais de valor e à elevação dos preços do petróleo e de outras commodities energéticas. Nesse contexto, o dólar voltou a atuar como ativo de proteção", analisa Lucca Bezzon, especialista de inteligência de mercado da StoneX.
O cessar-fogo reverteu este comportamento, aumentando significativamente o apetite por investimentos de risco. Entre os países emergentes, doze moedas se valorizaram frente ao dólar, incluindo o real brasileiro, a rúpia indiana e o peso mexicano. As bolsas de valores ao redor do mundo também tiveram pregões positivos.
Na Europa, o índice Euro STOXX 600, referência do continente, fechou em alta de 4,97%, desempenho similar aos índices de Frankfurt (5,06%), Londres (2,51%) e Paris (4,49%). Em Wall Street, as bolsas Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones avançaram 2,80%, 2,51% e 2,85%, respectivamente.
Incertezas persistem apesar do alívio momentâneo
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o cessar-fogo motivou a busca por risco após semanas de volatilidade intensa. "Alivia a taxa de câmbio com a desmontagem de parte das posições de proteção do mercado. A queda do petróleo afasta parte do temor de inflação persistente, aliviando os juros futuros".
Contudo, a especialista reforça que o cessar-fogo não significa o fim das incertezas, e o tom dos líderes políticos envolvidos no conflito continua indicando tensões latentes. As principais dúvidas giram em torno do fluxo de navegação no estreito de Hormuz e da continuidade de ataques na região.
O Irã concordou em permitir a passagem de navios pelo estreito, mas o tráfego permaneceu baixo. Empresas de navegação afirmaram nesta quarta-feira (8) que precisam de mais clareza sobre os termos do acordo entre Estados Unidos e Irã antes de retomar o trânsito pela via marítima estratégica. Teerã também condicionou a reabertura total à interrupção dos ataques por parte de Israel e dos EUA.
Nesta quarta-feira, Israel realizou o maior ataque a instalações do Hezbollah no Líbano desde o início do conflito, o que levou o Irã a ameaçar abandonar o cessar-fogo. O bloqueio do estreito de Hormuz, por onde passam aproximadamente 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos globalmente, lançou a economia mundial em uma turbulência sem precedentes.
O choque de oferta transformou-se em uma crise energética que fez os preços do petróleo e seus derivados dispararem, pressionando a inflação global. O crescimento econômico anteriormente previsto tem sido colocado em dúvida, assim como os próximos passos de alguns dos principais bancos centrais do mundo.
Tanto o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos quanto o Banco Central do Brasil citaram a guerra em suas decisões de política monetária do mês passado, diante do risco de pressão inflacionária global. Na última segunda-feira (6), o presidente do BC brasileiro, Gabriel Galípolo, defendeu o que chamou de "cautela" da instituição na condução da política de juros no país, afirmando que a sociedade não aceita mais conviver com inflação elevada.



