Uma associação de investidores está exigindo maior transparência da B3 sobre o desfecho de um processo de enforcement contra a Americanas, aberto há três anos. O caso está relacionado às graves falhas de governança que antecederam a descoberta de uma fraude contábil de R$ 25 bilhões na varejista.
Cobrança por transparência
Nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, o Instituto Empresa divulgou um comunicado à imprensa solicitando a publicação imediata do resultado final do processo movido pela B3 contra a Americanas. A associação civil de investidores, com sede em Porto Alegre, critica a falta de informações detalhadas sobre o julgamento.
Segundo o Instituto, a B3 anunciou o fim do julgamento e a aplicação de penalidades aos conselheiros de administração e membros do comitê de auditoria da empresa em 8 de novembro de 2023. No entanto, a página oficial do regulador no mercado de capitais limitou-se a publicar apenas o ofício inicial e um sumário da decisão, sem o detalhamento do desfecho.
Dúvidas sobre a efetividade da punição
A omissão do resultado completo, conforme o Instituto Empresa, gera incertezas sobre a real responsabilização dos administradores. Eles foram acusados de falhas graves de governança, que incluem o descumprimento do dever de diligência, a inobservância das regras do Novo Mercado e a falta de supervisão e controles internos adequados.
"Considerando que não se trata de esfera judicial ou arbitral, o prazo de três anos para exame de recursos é bastante exagerado", afirmou Eduardo Silva, representante do Instituto Empresa. "Nesse momento, não se consegue afirmar com certeza que sequer houve mesmo o julgamento dos recursos", completou.
A reportagem tentou contato com a B3 para obter um posicionamento, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.
O pano de fundo: a fraude bilionária
A cobrança ocorre no rastro do escândalo que abalou o varejo brasileiro. Em janeiro de 2022, a Americanas revelou ter sido vítima de uma fraude contábil que causou um rombo de R$ 25 bilhões em seu balanço.
As investigações da Justiça, que correm em paralelo ao processo administrativo da B3, apontam que a fraude foi liderada pelo então CEO da companhia, Miguel Gutierrez. O executivo teve a prisão decretada pela Polícia Federal em junho de 2025, mas foi solto em agosto do mesmo ano por decisão judicial. Ele responderá ao processo em liberdade até a conclusão do julgamento.
O caso da Americanas segue como um dos maiores testes para os mecanismos de enforcement e governança corporativa no Brasil, com o mercado financeiro e investidores minoritários aguardando respostas concretas sobre a aplicação de penalidades.