O cartão de crédito se consolidou como o principal vilão do orçamento das famílias brasileiras, alimentando um ciclo de dívidas que atinge níveis históricos. Uma pesquisa recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) expõe a gravidade da situação: 85,1% dos casos de inadimplência no país têm origem no uso do cartão de crédito.
Números alarmantes do endividamento
Os dados divulgados referentes a dezembro de 2025 são particularmente preocupantes. O nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu a marca de 78,9%, o maior patamar já registrado para o mês em toda a série histórica da pesquisa. Embora tenha havido uma leve queda em relação a novembro, o índice representa um aumento de 2,3 pontos percentuais na comparação com dezembro de 2024.
Após o cartão de crédito, a segunda maior causa de atrasos no pagamento é o carnê de parcelamento, responsável por 16,2% dos casos de inadimplência. Os números pintam um retrato de uma população que luta para equilibrar as contas em meio a um crédito caro.
O 'ciclo perverso' dos juros estratosféricos
O economista Miguel Daoud analisou o cenário em entrevista ao Conexão Record News e foi categórico ao descrever a dinâmica do cartão de crédito como um "ciclo perverso". Ele destacou a enorme distância entre a taxa básica de juros (Selic), que estava em 15% ao ano, e os juros rotativos praticados pelos bancos nos cartões, que podem chegar a incríveis 400% ao ano ou mais.
"Porque se você se endivida com uma taxa de 450%, 400%, você não vai pagar. Então aí o banco fala 'Opa, eles não vão pagar'. Mas o banco sabe que ele não vai pagar, aí já começa então a ratear isso para os outros que vão pegar dinheiro emprestado, vão usar o cartão que podem pagar", explicou Daoud. Segundo ele, o custo da inadimplência de alguns é embutido nas taxas cobradas de todos os outros clientes, perpetuando um sistema de crédito extremamente oneroso.
Conhecer os direitos é fundamental
Diante desse cenário desafiador, o economista enfatiza a importância crucial de o consumidor conhecer e exercer seus direitos. Um dos pontos mais relevantes é a proibição legal de cobrança de valores acima do dobro da dívida original, um limite estabelecido para proteger o endividado.
Para quem se encontra em situação de inadimplência, Daoud recomenda buscar canais oficiais de negociação. Entre as opções estão:
- Registrar uma reclamação no portal Consumidor.gov.br.
- Participar de feirões de renegociação de dívidas.
- Aderir a campanhas de renegociação promovidas por instituições como a Caixa Econômica Federal.
- Avaliar a possibilidade de portabilidade da dívida para outra instituição financeira com condições mais favoráveis.
A combinação entre taxas de juros abusivas e a falta de informação financeira cria uma armadilha para milhões de brasileiros. Romper esse ciclo perverso de endividamento exige, portanto, uma ação dupla: maior controle pessoal sobre os gastos com crédito e a busca ativa por mecanismos legais que permitam renegociar as dívidas em condições humanamente possíveis de cumprir.