BTS, Bad Bunny e a revolução musical que quebrou a hegemonia do inglês
BTS, Bad Bunny e a revolução musical que quebrou o inglês

A música global vive uma revolução: o inglês perdeu o trono para uma babel de idiomas. Artistas como BTS e Bad Bunny provam que a língua não é barreira para o sucesso. Impulsionados pelo streaming, k-pop, reggaeton e funk dominam as paradas, destacando a essência cultural.

A palavra sul-coreana arirang e a ousadia do BTS

A palavra sul-coreana arirang, sem tradução direta para nenhum outro idioma, intitula uma canção folclórica do país asiático, costumeiramente entoada durante momentos de dificuldade. Em uma ousadia calculada, o grupo de k-pop BTS pegou o termo deveras local e de fundo político para batizar seu sexto álbum de estúdio, lançado no fim de março. A escolha desafia as regras do mercado da música global: em um passado não muito distante, os artistas que almejavam extrapolar as fronteiras de seus países — e chegar ao maior consumidor de música do mundo, os Estados Unidos — deveriam ser submissos à língua inglesa e à cultura americana. O próprio BTS já se rendeu a essa máxima, abrindo portas com músicas em inglês. Com o tempo e o sucesso, os integrantes começaram a impor o desejo de ter mais faixas em coreano em seus discos. Poderia ter sido um tiro no pé, mas não foi.

Números impressionantes do álbum Arirang

Após míseros dez minutos de seu lançamento, Arirang vendeu 1 milhão de cópias no mundo — batendo quase 4 milhões nas primeiras 24 horas. Na plataforma de streaming Apple Music, liderou os rankings de mais ouvidos em 115 países. No Spotify, foi reproduzido 110 milhões de vezes em seu primeiro dia no ar. Os números robustos poderiam ser atrelados à fama já estabelecida dos rapazes — o que, de fato, faz a diferença. Porém, é sabido que, no mundo da música, a instabilidade é constante, especialmente entre ouvintes mais jovens e ávidos por novidades. Logo, o bom resultado da banda deve-se também à nova tendência que tomou a indústria na última década: com a proliferação do streaming e o maior acesso ao que é produzido em outros países, o inglês perdeu o monopólio das paradas — enquanto outras línguas ganharam espaço.

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Precursores e a diversificação linguística

Precursor recente desse movimento, o também sul-coreano Psy ganhou o mundo com seu indefectível hit Gangnam Style, facilmente balbuciável por qualquer um que tenha escutado a faixa. Nos últimos cinco anos, o número de idiomas na principal parada global do Spotify praticamente dobrou, atingindo um recorde de dezesseis línguas em 2025. O aumento denuncia um fenômeno mais amplo: com o pop americano enlatado, saturando a si mesmo e carente de novidades, o ouvinte passou a buscar prazer e conexão nos sons de outros continentes. Não à toa, gêneros como k-pop, reggaeton, trap e até o funk brasileiro estão hoje entre os ritmos que mais crescem em popularidade no mundo.

Bad Bunny e o fenômeno do espanhol

Maior representante dessa onda, o porto-riquenho Bad Bunny é um fenômeno inabalável. Ele foi o primeiro a liderar por três anos seguidos, de 2020 a 2022, a lista de mais ouvidos do Spotify — posto ao qual retomou em 2025, com 19,8 bilhões de reproduções de suas músicas no ano. Alcançou tal feito sem entoar nenhuma frase em inglês. “Acho que já provamos que a música é uma linguagem universal”, disse ele, que só canta em espanhol.

Artistas estabelecidos e a volta às raízes

Estrelas que já estão na estrada há mais tempo aproveitam a onda. A colombiana Shakira investiu no inglês no começo da carreira e hoje, mais estabelecida e com o mercado em um novo contexto, vem voltando às raízes. Há ainda casos extremos, como a espanhola Rosalía, que incluiu treze idiomas no álbum Lux, ou até a brasileira Anitta, que canta em cinco línguas se necessário. “Quando o artista foge de entregar um produto americanizado, ele destaca sua essência”, acredita Nino Vilassa, diretor artístico da Som Livre. Com isso, o hit parade virou uma grande babel. Sorry, americans! Ou melhor, hasta la vista!

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