Chuvas na Paraíba: 2 mortes, 31 cidades em emergência e milhares de desabrigados
Chuvas na Paraíba: 2 mortes, 31 cidades em emergência

A Paraíba enfrenta uma sequência de fortes chuvas que já provocaram mortes, alagamentos, cheias de rios e milhares de pessoas afetadas em diferentes regiões do estado. Em apenas dois dias, João Pessoa registrou quase 70% da média histórica de chuvas previstas para todo o mês de maio, segundo dados da Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec-JP).

De acordo com o órgão, choveu 196 milímetros em um intervalo de 48 horas, enquanto a média histórica para maio é de 282 milímetros. O volume elevado em um intervalo tão curto dá a sensação de que o período chuvoso começou antes do esperado. Para entender o fenômeno e o impacto sobre as cidades, o g1 ouviu o professor de climatologia Ranyére Nóbrega, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Impacto da Zona de Convergência Intertropical

O professor Ranyére Nóbrega afirma que a atuação mais intensa da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) explica o volume elevado de chuvas registrado na Paraíba nos últimos dias. “Este ano a Zona de Convergência Intertropical está muito mais ativa do que o normal, então, não foi em si um adiantamento. No final de abril e início de maio já começamos a observar as chuvas no litoral e agreste com mais frequência. A eventualidade foi a intensidade das chuvas, principalmente num curto tempo", explicou.

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A ZCIT é uma grande banda de nuvens e tempestades que circula a região equatorial do globo. Ela se forma pelo encontro de ventos alísios úmidos dos hemisférios Norte e Sul, que forçam a subida do ar quente e favorecem a formação de nuvens carregadas. Entre fevereiro e maio, é o principal sistema responsável por chuvas intensas no Norte e Nordeste do Brasil.

Nóbrega explica que anos e meses mais chuvosos ou mais secos fazem parte do ciclo natural do clima. O que chama atenção, segundo ele, é que os eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos, com grandes volumes de chuva concentrados em poucos dias. Esse comportamento está associado ao aquecimento global, afirma o pesquisador.

Cheia do Rio Paraíba e falta de preparo das cidades

O nível do Rio Paraíba subiu mais de sete metros na região próxima ao município de Santa Rita, segundo a Defesa Civil, após as fortes chuvas que atingem a Paraíba desde a última sexta-feira (1º). A elevação rápida das águas do rio contribuiu para alagamentos e deixou milhares de pessoas fora de casa.

Desde o início do período chuvoso mais intenso, o estado já contabiliza duas mortes, mais de 3 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas e 31 municípios em situação de emergência. Ao todo, 37,4 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas em diferentes regiões da Paraíba.

Para o climatologista, os impactos da cheia evidenciam problemas estruturais antigos. Ele explica que as cidades cresceram sem planejamento urbano adequado, com ocupação de áreas vulneráveis e outros fatores que ampliam os efeitos das chuvas intensas. "Fato é que as cidades cresceram e não se prepararam. Há um considerável assoreamento nos rios, falta drenagem adequada, as cidades crescem de forma desordenada. Nas secas havia a dispersão, nas cidades há uma concentração, então a violência do evento acaba sendo muito mais sentida de imediato", disse.

O especialista acrescenta que a configuração da bacia do Rio Paraíba favorece cheias rápidas, o que intensifica os impactos das chuvas em áreas urbanas. “As nascentes estão localizadas em partes altas do Planalto da Borborema, então a água desce com muita velocidade, o que favorece picos de cheia. Há pouca infiltração porque o solo é rochoso, aumentando o escoamento superficial e fazendo com que o nível dos rios suba muito rápido", comentou.

Medidas de resposta

Equipes da Defesa Civil Nacional chegaram à Paraíba no domingo (3) para apoiar os municípios atingidos. Os técnicos orientam as prefeituras sobre o reconhecimento federal de situação de emergência e a solicitação de recursos para assistência humanitária, restabelecimento e reconstrução.

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O Ministério Público da Paraíba (MPPB) instituiu um gabinete de crise para coordenar a atuação institucional diante dos impactos das chuvas. A medida foi anunciada pelo procurador-geral de Justiça, Leonardo Quintans, com participação da promotora Cláudia Cabral, coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente.

A Prefeitura de João Pessoa disponibilizou quatro pontos de arrecadação para doações de roupas e colchões para as famílias desabrigadas.

Previsão para os próximos dias

As chuvas devem continuar na Paraíba nos próximos dias, mas a tendência é de redução no volume. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), esta segunda-feira (4) tem possibilidade moderada de ocorrências hidrogeológicas, como deslizamentos pontuais em encostas, em razão do acumulado de chuva e da previsão de novos episódios, que podem variar de moderados a fortes.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também renovou os alertas de chuvas intensas para municípios do estado. O alerta amarelo, de perigo potencial, é válido até as 10h da quinta-feira (7). De acordo com o Inmet, nas áreas sob esse nível de alerta, pode chover entre 20 e 30 milímetros por hora ou até 50 milímetros por dia, com ventos entre 40 e 60 quilômetros por hora. O órgão informa que há baixo risco de interrupção no fornecimento de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e descargas elétricas.

Decreto de situação de emergência

A Paraíba tem 31 cidades em situação de emergência por conta das fortes chuvas que atingem o estado desde a última sexta-feira (1°), conforme decreto publicado no Diário Oficial do Estado (DOE-PB). Com o decreto, órgãos e entidades da Administração Pública do Estado podem tomar várias medidas emergenciais, como abertura de crédito extraordinário e concessão de auxílio financeiro emergencial às famílias diretamente atingidas pelas chuvas. O decreto, publicado em edição extraordinária do DOE neste domingo (3), tem prazo de 180 dias.

As cidades em situação de emergência estão entre as mais afetadas pelas chuvas. A lista inclui: Alagoa Grande, Alhandra, Areia, Bayeux, Caaporã, Conde, Cruz do Espírito Santo, Gurinhém, Ingá, Itabaiana, Itatuba, João Pessoa, Juripiranga, Pedras de Fogo, Pilar, Pilões, Pitimbu, Riachão do Bacamarte, Rio Tinto, Lagoa Seca, Serra Redonda, Serraria, Massaranduba, Mogeiro, Mulungu, Natuba, Santa Rita, Salgado de São Félix, São José dos Ramos, São Sebastião de Lagoa de Roça e Sapé.

Campanhas solidárias

Para ajudar as famílias afetadas, é possível fazer doações de colchões, cobertores, alimentos não perecíveis, agasalhos, roupas e água potável. Os pontos de entrega incluem as Casas da Cidadania em diversas cidades, como Queimadas, Ingá, Campina Grande (Partage e Citymix), João Pessoa (Valentina, Mangabeira, Bessa, Jaguaribe, Tambiá, Manaíra), Alhandra, Cabedelo, Conde, Bayeux, Pitimbu, Sapé, Guarabira, Itabaiana, Mari e Mamanguape. Em João Pessoa, os locais de arrecadação são: Centro de Cooperação da Cidade (Avenida João Cirilo da Silva, Altiplano), Centro Cultural Tenente Lucena (Mangabeira) e os shoppings Mangabeira e Manaíra, com funcionamento das 8h às 17h.

Mortes na Paraíba

Em Guarabira, duas pessoas morreram vítimas de choque elétrico pouco antes de uma corrida de rua em comemoração ao Dia do Trabalhador. Chovia forte no momento do incidente. Testemunhas relataram que o caso pode ter sido provocado por uma descarga elétrica causada por um fio energizado em contato com a água e com a estrutura montada para a corrida. Os corpos de Washington Gonçalves, de 42 anos, e Antônio Felipe da Silva Júnior, de 36 anos, foram sepultados na tarde do sábado (2).

Demais transtornos na PB

Após as fortes chuvas que atingiram a Paraíba, o rio que corta a cidade de Ingá, no Agreste da Paraíba, transbordou e causou a destruição parcial de uma ponte, deixando moradores ilhados na sexta-feira (1º). Parte da estrutura cedeu e foi levada pela água, e uma grande rachadura apareceu no asfalto, aumentando o risco de um colapso total. No momento em que a ponte cedeu, um homem chegou a cair no rio e ser arrastado, mas conseguiu ser resgatado. Por causa do risco, a ponte foi interditada para veículos e apenas pedestres podem atravessar com autorização da Defesa Civil.

Em Itatuba, uma casa desabou, mas ainda não há informações sobre feridos. Uma das faixas da rodovia PB-032, principal acesso ao município de Pedras de Fogo, foi totalmente interditada após o aumento de uma cratera que se abriu na via com as fortes chuvas. O desvio provisório pela zona rural também foi interditado. Segundo o DER, obras de reforço de solo estavam sendo realizadas, mas as chuvas provocaram o rompimento total do trecho.

Uma barragem rompeu e pelo menos outros dois barreiros também cederam na sexta-feira (1º), na zona rural de Lagoa Seca, no Agreste da Paraíba. De acordo com a Defesa Civil do município, uma pessoa precisou ser resgatada. “Tivemos o rompimento de algumas barragens e pequenos barreiros causando prejuízo e conseguimos resgatar uma pessoa que teve sua casa atingida, com sua integridade física intacta, mas os bens materiais foram todos levados", disse George Neemias, coordenador da Defesa Civil de Lagoa Seca. A barragem que rompeu é de médio porte, enquanto os demais reservatórios eram de pequeno porte.

Moradores do bairro Muçumagro, em João Pessoa, protestaram na sexta-feira (1°) após relatarem transtornos causados pelas chuvas desde a última terça-feira (28). Eles cobram melhorias na infraestrutura da região para evitar enchentes.