Na Rua Falcão Filho, no centro de Campinas (SP), uma casa azul de 1947 passou despercebida por anos. O imóvel, antes vazio, foi transformado por uma associação sem fins lucrativos em moradia social para jovens que saíram de lares institucionais. Esta não é a primeira iniciativa da instituição para ampliar o acesso à moradia. A cerca de 500 metros dali, a Vila Sal, nome dado por voluntários a uma casa de 1929, abriga quatro mães solo e oito crianças de 2 a 13 anos.
A ideia surgiu de um princípio simples: unir a necessidade de moradia de milhares de famílias à possibilidade de dar novo propósito a casas vazias ou ociosas com valor histórico e cultural. "Isso é o direito à cidade. É essa população vulnerável, de baixa renda, poder acessar o Centro, que tem emprego, infraestrutura, escola, hospital. Mas não basta só ter o direito à cidade, a gente precisa ter o direito à moradia digna. Uma moradia que é projetada para atender as necessidades desses jovens e das mães com seus filhos", afirma Vanessa Bello, arquiteta e urbanista membro do Conselho Administrativo do Fundo Haja!
Uma nova história
Após restauro, o imóvel da Rua Falcão Filho, batizado de Casa das Juventudes ou Casa Caju, perdeu a cor azul desbotada das paredes externas para ganhar uma pintura alaranjada vibrante. Internamente, paredes, portas e móveis foram renovados, preservando a identidade arquitetônica dos anos 1950. Danilo Cartaxo, 22 anos, é um dos jovens que vão chamar a Casa Caju de lar. Sentado em uma das camas, ele compartilha seus planos: "Eu sou uma pessoa que quer crescer na vida. Tenho o sonho de vender apartamento, um dia vender carro. Meu objetivo é que, como tenho essa casa agora, esse apoio, possa estudar o máximo possível para ingressar na área de vendas". Danilo foi afastado da família biológica na infância e cresceu em abrigos. Aos 18 anos, deixou o acolhimento institucional e participou da Escola de Restauro da associação, onde recebeu capacitação em construção civil e conheceu o projeto da Casa Caju. "Meu sentimento é de gratidão. Ver que tem gente pensando nessas pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades, construindo um projeto que pode dar uma nova história", diz.
Alçando voos
A associação oferece aluguel social subsidiado por dois anos pela Fundação FEAC, além de apoio para ingresso no mercado de trabalho, incentivo aos estudos e capacitação profissional. Fundado em 2021, o Fundo Haja! reúne profissionais de arquitetura, engenharia, direito, comunicação, assistência social e psicologia para transformar imóveis vazios em espaços de recomeço. "Atuamos numa área com lacuna de política pública habitacional. Não existe política pública de locação social no Brasil nem para restauro de imóveis vazios. O Centro de Campinas tem 54 mil imóveis vazios, e este é nosso segundo imóvel", detalha Vanessa Bello. A aquisição é financiada por doações, investidores sociais, recursos da Fundação FEAC, anuidades, eventos e aplicações financeiras. A voluntária Águeda Bittencourt explica que os jovens selecionados precisam ter fonte de renda. "A ideia é uma casa digna, onde se sintam bem e se construam como cidadãos autônomos. O Haja não oferece alimentação, mas recebe jovens que estão se construindo. A gente vai ficar perto, cuidar, mas eles é que vão voar", destaca.



