Vida no interior resiste em Florianópolis: 2,38 mil moradores mantêm tradições rurais
Cercada pelo mar e famosa pelo turismo de verão, Florianópolis guarda um segredo pouco conhecido: cerca de 2,38 mil moradores vivem uma vida genuinamente "de interior" na capital catarinense, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em meio à badalação das praias, comunidades rurais resistem e preservam tradições agrícolas que remontam aos primeiros colonizadores açorianos.
Agricultura familiar sustenta comunidades isoladas
O produtor rural Devalde Francelino de Souza personifica essa realidade. Em seu sítio localizado no Sertão do Ribeirão, a 26 quilômetros do Centro da cidade, ele cultiva verduras e frutas, enquanto do curral extrai leite que se transforma em queijo e nata, e do galinheiro recolhe ovos frescos. "Todo mundo acha que o manezinho é só da beira da praia, mas não é. Tem o interior da ilha, os cantos que não têm mar", afirma Devalde, desafiando a imagem estereotipada da capital.
Sua produção, embora modesta, abastece comércios em diversas partes da cidade e fortalece o senso de comunidade local. O que um produz, outro frequentemente ajuda a vender, mantendo a economia girando entre vizinhos. Um exemplo notável é a cachaça artesanal do produtor Bento José dos Santos, que encontra espaço no sítio de Devalde. Quando o trabalho em sua própria propriedade diminui, Bento auxilia o vizinho em diversas tarefas, desde roçar e capinar até abrir valas e cuidar do gado.
Acesso e atrativos das comunidades rurais
Para alcançar o Sertão do Ribeirão, é necessário percorrer a estrada Francisco Thomas dos Santos, na localidade da Costeira do Ribeirão, ou acessar pelo Pântano do Sul. A subida, especialmente na parte mais alta, apresenta trechos de terra e pedras que testemunham o isolamento relativo da região. Contudo, a área oferece diversos atrativos naturais:
- Lagoas propícias para pesca
- Trilhas para caminhadas e exploração
- Espaços ideais para piqueniques
- Cachoeiras de águas cristalinas
Segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), as comunidades rurais de Florianópolis concentram-se especialmente em quatro localidades principais: Sertão do Ribeirão, Ratones, Rio Vermelho e Ribeirão da Ilha.
Raízes históricas da agricultura na ilha
A agricultura integra a história de Florianópolis desde os primórdios da colonização. No século 18, milhares de açorianos chegaram à região e se espalharam pelo interior, abrindo roças e formando pequenas comunidades que dariam origem ao tecido social atual. O aipim tornou-se a base da produção local, dando origem aos engenhos de farinha que, durante décadas, representaram uma das principais atividades econômicas da ilha.
Dessa rica tradição, a produtora rural Almerinda Catarina Scotti de Souza não abre mão. Entre panelas de barro, louças antigas e fogão a lenha, ela encontra significado profundo em sua rotina. "Eu acho que não tem coisa melhor do que tu colher o teu alimento, saber o que está comendo. Na época da fruta, vai lá e apanha a fruta direto do pé e come. É o leite, é o queijo, é a nata, é a manteiga. É uma coisa que tu sabes que foi tu que produziu, foi tu que fez", emociona-se Almerinda.
"Para mim, não tem riqueza maior do que isso: ver um bichinho... Adoro os bichinhos. Ver um galo cantando", complementa a produtora, destacando a conexão íntima com a natureza que define o estilo de vida rural na capital catarinense. Essas comunidades, embora representem uma minoria demográfica, mantêm viva uma parte essencial da identidade cultural e histórica de Florianópolis, equilibrando modernidade urbana com tradições seculares.



