Honda tem pior ano desde 1957 com prejuízo de US$ 2,7 bilhões
Honda registra pior ano desde 1957 com prejuízo bilionário

A Honda enfrenta o pior ano de sua história ao registrar o primeiro prejuízo anual desde sua abertura de capital na Bolsa de Tóquio, em 1957. A montadora japonesa encerrou o ano fiscal de 2025/2026 com perdas de 423,9 bilhões de ienes, aproximadamente US$ 2,7 bilhões, após uma reavaliação drástica de sua estratégia para veículos elétricos. O resultado marca uma virada simbólica para uma das fabricantes mais tradicionais da indústria automotiva japonesa e expõe as dificuldades enfrentadas por montadoras históricas na corrida pela eletrificação, especialmente diante da concorrência chinesa e da desaceleração da demanda por veículos elétricos nos Estados Unidos.

Cancelamento de modelos e congelamento de projetos

A empresa anunciou o cancelamento de três modelos elétricos planejados para o mercado norte-americano, incluindo um SUV, um sedã da linha “Honda 0” e um modelo de luxo da Acura. Também congelou por tempo indeterminado um projeto de US$ 11 bilhões para produção de veículos elétricos e baterias no Canadá. O presidente-executivo da companhia, Toshihiro Mibe, admitiu que a empresa não conseguiu responder com rapidez às mudanças no mercado. Em entrevista coletiva em Tóquio, afirmou que o ambiente de negócios mudou “além das expectativas” da montadora.

Recuo na estratégia elétrica

A Honda abandonou uma das metas mais ambiciosas anunciadas pela própria companhia nos últimos anos: tornar todos os seus carros elétricos ou movidos a célula de combustível até 2040. A meta havia sido apresentada em 2021, num momento em que governos ocidentais ampliavam subsídios e regras ambientais para acelerar a transição energética no setor automotivo. Agora, a empresa admite que o cenário mudou. Entre os fatores apontados pela Honda estão o enfraquecimento da demanda por elétricos nos EUA, o relaxamento de políticas ambientais promovido pelo governo de Donald Trump e tarifas comerciais que elevaram custos da operação. A montadora também citou dificuldades crescentes na China, hoje o maior mercado automotivo do mundo.

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Segundo a empresa, consumidores chineses passaram a valorizar mais recursos de software, conectividade e direção assistida, áreas em que fabricantes locais avançaram rapidamente. Nos últimos cinco anos, as vendas da Honda na China despencaram mais de 50%. Dados compartilhados por analistas e comunidades do setor automotivo mostram que a montadora caiu de cerca de 1,6 milhão de veículos vendidos em 2020 para aproximadamente 645 mil em 2025. Fabricantes chinesas como BYD, NIO e XPeng ampliaram participação no mercado oferecendo carros elétricos mais baratos, com ciclos rápidos de atualização tecnológica e forte integração de software.

A crise das montadoras tradicionais

O resultado da Honda ocorre em meio a um momento de forte pressão sobre fabricantes tradicionais de automóveis. Diversas montadoras vêm revendo planos de eletrificação acelerada diante da combinação entre custos elevados, margens pressionadas e crescimento mais lento do mercado de elétricos. A própria Honda afirmou que suas perdas relacionadas à estratégia de eletrificação podem chegar a 2,5 trilhões de ienes, cerca de US$ 16 bilhões, considerando baixas contábeis, cancelamentos de projetos e custos futuros.

Outras fabricantes também enfrentam dificuldades. A Jaguar Land Rover informou nesta semana uma queda de 99% no lucro anual, pressionada por tarifas dos EUA, competição chinesa e problemas operacionais. Nos Estados Unidos, empresas como Ford Motor Company e General Motors já anunciaram revisões em investimentos bilionários destinados a veículos elétricos, priorizando híbridos e modelos a combustão mais rentáveis.

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Híbridos viram aposta para recuperação

Diante do recuo nos elétricos, a Honda pretende concentrar sua recuperação na expansão da linha de veículos híbridos, especialmente no mercado americano, onde modelos da Toyota ganharam espaço nos últimos anos. A empresa projeta voltar ao lucro no atual ano fiscal, com previsão de ganhos superiores a US$ 1,6 bilhão. Parte dessa recuperação deve vir do corte de custos e do desempenho da divisão de motocicletas, que segue altamente lucrativa em países como Índia e Brasil. Segundo a companhia, o segmento de motos atingiu recordes de vendas e rentabilidade no último ano, funcionando como amortecedor diante das perdas na operação automotiva.

Mesmo assim, analistas avaliam que o movimento da Honda representa mais do que uma dificuldade pontual. Para parte do mercado, o recuo evidencia o risco de montadoras tradicionais perderem espaço justamente no momento em que a indústria automotiva passa por sua maior transformação tecnológica em décadas.