Luthier autodidata de Alambari aprende sozinho e fabrica violas caipiras artesanais
Luthier autodidata de Alambari fabrica violas caipiras

Responsável pela construção, manutenção e restauração de instrumentos musicais, o luthier é um profissional que alia técnica, sensibilidade e conhecimento acústico para dar forma e qualidade ao som. Em meio à produção industrial, o trabalho artesanal se destaca pelo cuidado nos detalhes. O ofício chamou a atenção de Silvano Batista Proença de Góis, de 41 anos, morador de Alambari (SP). O interesse pela luteria surgiu de forma despretensiosa e motivado pela paixão que sente pela música caipira.

Aprendizado autodidata

Desde criança, Silvano já nutria amor pela música caipira raiz, influenciado pelo pai, fã de músicas antigas. "Tomei gosto pela música caipira e fui crescendo com essa paixão. Mas a vontade de começar a fazer instrumento começou a bater há pouco tempo. Me despertou o interesse em fazer instrumento de forma artesanal em casa", relata. O primeiro instrumento construído não poderia ser outro: uma viola caipira. As tentativas iniciais, feitas com ferramentas simples e materiais reaproveitados, foram fundamentais para que ele começasse a compreender o ofício. "A viola foi feita com madeiras que não eram apropriadas, simplesmente fiz pela vontade de fazer. Em questão do resultado, por incrível que pareça, me surpreendeu. Até por conta eu acho que da vontade, da dedicação mesmo de fazer o instrumento e tirar um som, por mais que foi com madeira simples, sem qualidade nenhuma para lutearia", conta.

A satisfação com o primeiro trabalho foi decisiva para que Silvano decidisse explorar a nova habilidade. O aprendizado foi totalmente autodidata, sem cursos ou orientação formal. Guiado pela curiosidade, ele passou a desmontar instrumentos antigos para observar sua estrutura, aprendendo ao longo do processo. "Aprendi sozinho. Antes de construir, desmontei um instrumento velho para entender como ele era por dentro, as medidas. Depois comecei a pesquisar na internet, acompanhar canais de luthiers, buscando mais conhecimento. Mas sempre aprendi por conta própria", explica.

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Instrumentos artesanais personalizados

Atualmente, com quase dois anos na profissão, Silvano ampliou os modelos de instrumentos de corda que fabrica. Hoje, a clientela encontra viola caipira, cavaquinho e violão. "A maior procura é pela tradicional viola caipira, cinturada. Tanto que fiquei conhecido como Silvano viola." Junto de Silvano, o cliente pode decidir o tipo de madeira que quer para o instrumento, as calibragens e espessuras do material e até detalhes do acabamento. "É um processo bem artesanal. Depende muito de como o cliente vai querer a configuração dos acessórios, mas é uma etapa bem demorada, que precisa ser feita com cautela, para que tenha um resultado bom." O tempo de produção varia conforme o pedido, levando em média de dois a três meses para fabricar e entregar o instrumento.

Inspiração e sonhos

No processo de ganhar confiança no próprio trabalho, um nome foi fundamental para Silvano: o músico, compositor e pesquisador da cultura caipira Bob Vieira. Reconhecido em Itapetininga pelo trabalho artístico e educativo, que mistura viola, MPB e ritmos tradicionais, o artista teve uma viola construída pelo luthier, e a utilizou em uma apresentação. Emocionado, Silvano relembra o momento. "Ele ficou surpreso com o resultado, mesmo sendo um instrumento simples, artesanal. O Bob me deu dicas, opiniões, foi uma referência. Mas o que mais me marcou foi um show no Teatro do Sesi, em Itapetininga, quando ele abriu a apresentação com a viola que eu fiz. É algo que vou levar para a vida toda", conta. Além de Bob Vieira, o luthier também construiu uma viola caipira para a cantora Carol Carneiro, de Brasília, experiência que ele define como um privilégio. Agora, o sonho é produzir um instrumento para o cantor Daniel, artista que admira muito. "Por conta da forma que ele cultiva a música caipira. Teve uma época que ele gravou o CD Meu Reino Encantado, foi um dos melhores álbuns que ele fez, na minha opinião, e se eu tivesse a oportunidade de fazer um instrumento, uma viola caipira, qualquer instrumento que fosse, seria para ele", compartilha.

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Artesanal versus industrial

Em um mercado cada vez mais industrializado, o trabalho artesanal se destaca pela personalização e pelo cuidado em cada etapa. Para o luthier autodidata, mais do que técnica, o que sustenta a profissão é a paixão pela música e o compromisso em criar instrumentos com identidade própria. "Existem vários fatores que diferenciam. O processo de fabricação é feito com mais capricho e cautela, buscando um resultado melhor. Depois, na regulagem, o instrumento artesanal recebe um ajuste mais preciso, pensado para oferecer conforto a quem vai tocar. É esse cuidado, essa atenção aos detalhes, que diferencia um instrumento de fábrica de um feito à mão", explica.

Uma arte

Para Silvano, a profissão representa a realização de um sonho antigo e a oportunidade de se aproximar de nomes da cultura caipira, mas, acima de tudo, é uma forma de arte. "A profissão de luthier é uma arte, uma arte espetacular, na minha opinião. Você pegar uma madeira bruta, montar um instrumento e tirar um som, isso com certeza é uma arte. A gente que trabalha de forma artesanal, bem simples, mas defendendo a cultura raiz, a viola caipira, é um prazer trabalhar com isso", finaliza.