Café Tacvba lidera boicote ao Spotify por laços bélicos e royalties
Café Tacvba retira músicas e pede boicote ao Spotify

Um novo capítulo na tensa relação entre artistas e plataformas de streaming foi aberto nesta semana. O vocalista e líder da renomada banda mexicana Café Tacvba, Rubén Albarrán, anunciou publicamente a retirada de seu catálogo musical do Spotify e convocou um boicote à plataforma. O movimento reacende um debate crucial sobre ética, financiamento de conflitos e a remuneração justa na era digital.

O manifesto de Albarrán e as acusações contra o Spotify

Na última terça-feira, 7 de janeiro de 2026, Rubén Albarrán usou seu perfil no Instagram, com mais de 198 mil seguidores, para fazer um comunicado direto e contundente. Em um vídeo acompanhado de uma legenda detalhada, o músico explicou os motivos da decisão radical.

"Pessoalmente, convido nossos fãs a ouvirem nossa música em outras plataformas que não essa ou, melhor ainda, a boicotá-la", escreveu Albarrán. Ele pediu para que os ouvintes não se tornem "cúmplices de abusos de poder, de guerras em curso e da violência". O artista defendeu a criação de um "mundo novo, mais justo e horizontal", onde a música preserve seu valor comunitário.

As acusações são graves e multifacetadas. Segundo o líder do Café Tacvba, o Spotify estaria envolvido com a indústria bélica, veiculando anúncios do serviço de imigração americano (ICE) e administrando royalties e ferramentas de inteligência artificial de forma prejudicial aos criadores.

A defesa da plataforma e o precedente de outros artistas

O Spotify reagiu rapidamente às acusações, emitindo um comunicado oficial. A empresa afirmou "respeitar o legado artístico do Café Tacvba e o direito de Rubén Albarrán de expressar suas opiniões", mas foi enfática ao discordar dos fatos apresentados. "Os fatos contam uma história diferente", declarou a plataforma, negando qualquer financiamento direto a atividades militares.

O cerne da polêmica parece estar nos investimentos pessoais de Daniel Ek, CEO do Spotify. Notícias anteriores revelaram que Ek investiu 600 milhões de euros na startup de defesa Helsing, especializada em inteligência artificial para aplicações militares, como drones de combate. O Spotify argumenta que o valor partiu de outra empresa do executivo, a Prima Materia, e que a Helsing não esteve envolvida em ataques a Gaza.

O Café Tacvba, no entanto, não é pioneiro nesse tipo de protesto. A banda se junta a um movimento crescente de artistas independentes que já retiraram suas obras da plataforma. Nomes como King Gizzard & The Wizard Lizard, Massive Attack e Xiu Xiu tomaram a mesma decisão, motivados pela mesma preocupação com os investimentos bélicos do principal executivo do serviço de streaming.

Um debate antigo: royalties e o poder das gravadoras

Além da questão ética sobre investimentos, Albarrán tocou em um ponto sensível e recorrente: a remuneração dos artistas. Sobre o pagamento de direitos autorais, o Spotify mantém seu discurso habitual, afirmando que os valores dependem de negociações individuais entre cada artista e sua gravadora.

Esse modelo, criticado por muitos, já levou grandes estrelas a confrontarem a plataforma no passado. O caso mais emblemático foi o de Taylor Swift, que retirou todo o seu catálogo do Spotify entre 2014 e 2017 em uma disputa por melhores termos de remuneração. A ação da cantora demonstrou o poder que artistas de grande alcance têm, mas também destacou a vulnerabilidade daqueles com menos influência no mercado.

A decisão do Café Tacvba coloca o holofote novamente sobre a sustentabilidade do modelo de streaming para a maioria dos músicos e sobre a responsabilidade social das grandes empresas de tecnologia. A pergunta que fica é se esse protesto isolado se transformará em um movimento mais amplo, capaz de forçar mudanças concretas na política de investimentos e na distribuição de renda da principal plataforma de música do mundo.