O Brasil acaba de ganhar uma Organização Não Governamental (ONG) dedicada a receber denúncias contra grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs. A iniciativa, batizada de CTRL+Z, permite que usuários que enfrentaram problemas com plataformas como Instagram, Facebook, Google e X (antigo Twitter) registrem seus casos e tenham acesso a suporte jurídico gratuito. Além disso, a ONG abre espaço para que funcionários dessas corporações façam denúncias e revelem práticas internas que ainda não vieram a público.
O que são big techs?
O termo, em inglês, refere-se às grandes empresas de tecnologia que dominam o mercado digital, concentram milhões de usuários e estão entre as organizações mais valiosas do mundo. Fazem parte desse grupo companhias como Apple, Amazon, Google, Microsoft e Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp.
Por enquanto, a CTRL+Z está em fase de testes, o que significa que o suporte pode levar algum tempo para ser prestado, segundo as fundadoras, as jornalistas Tatiana Dias e Daniela da Silva. Daniela era chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil e deixou o cargo após Mark Zuckerberg anunciar o fim do programa de checagem de fatos na empresa.
Objetivo da ONG
Em entrevista ao g1, Daniela afirmou que o objetivo da CTRL+Z é criar uma cultura de responsabilização das big techs. A ONG busca parcerias e já conta com uma equipe de advogados para atuar nos casos. “E já surgiram ofertas. Começamos a receber várias mensagens de escritórios de advocacia interessados em fechar parceria”, disse.
Como funciona
As denúncias podem ser feitas gratuitamente pelo site oficial da ONG (https://ctrlz.org.br/add/). Segundo as responsáveis, as vítimas podem relatar casos como encerramento de conta sem aviso, perfil falso, vazamento de dados pessoais, bloqueio temporário injustificado ou perda de acesso, como em situações de conta hackeada.
Daniela citou o exemplo de uma pessoa que teve uma conta do Google, usada há 20 anos, suspensa indevidamente sob suspeita de uso de imagem de exploração infantil. Ela explicou que, devido ao login único da empresa, a suspensão da conta principal pode levar à perda de acesso a diversas plataformas e ferramentas essenciais. “Além dos prejuízos financeiros, pois muita atividade econômica hoje está diretamente ligada a essa presença online”, afirmou. Após a atuação da ONG, o acesso foi recuperado.
No formulário de denúncia, as vítimas devem informar o nome da plataforma e descrever o problema, relatando o que aconteceu, se houve contato com a empresa e se obteve respostas. Também é possível anexar provas e fornecer dados pessoais, como nome, cidade e e-mail. Ao final, a pessoa pode autorizar o contato de um advogado para tirar dúvidas e prestar auxílio, além de decidir se permite a divulgação pública do caso.
Segurança e anonimato
As fundadoras explicaram que a ONG optou por não utilizar formulários de big techs, como Google Forms e Microsoft Forms, para impedir que essas empresas tenham acesso ao conteúdo das denúncias. Em vez disso, utiliza um sistema com criptografia de ponta a ponta, garantindo que apenas remetente e destinatário consigam acessar as informações enviadas.
Já o programa #VazaBigTech foi criado para incentivar funcionários de big techs a denunciar casos de interesse público. Embora a plataforma possa ser acessada por navegadores comuns, as fundadoras destacam que o nível máximo de segurança e anonimato só é garantido com o uso do navegador Tor, que dificulta o rastreamento na internet. O objetivo é reunir relatos, documentos e informações sobre decisões consideradas arbitrárias ou negligências com potencial interesse público. Tatiana Dias afirma que a ferramenta permite o envio de denúncias anônimas, de modo que “nem a gente tem como saber quem é”, ressaltando que a identidade da fonte permanece protegida.
Motivação da fundadora
Daniela da Silva deixou a Meta no início de 2025. Ela era diretora de políticas públicas do WhatsApp no Brasil e atuou no cargo entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025. A saída ocorreu após Mark Zuckerberg anunciar, em um vídeo, o fim da checagem de fatos nos EUA. Na ocasião, o executivo também disse que a Meta passaria a pressionar governos, em parceria com a administração Trump, contra o que classificou como tentativas de censura a companhias americanas.
Ao g1, Daniela disse que já havia sinais de aproximação da Meta com o governo Trump, mas que a forma como isso se concretizou internamente, por meio do vídeo de Zuckerberg, foi uma surpresa. Ela afirmou que ficou sabendo da mudança “junto com todo mundo”, ou no máximo uma hora antes da divulgação ao público.
A brasileira expôs sua indignação em uma publicação no LinkedIn, onde também anunciou sua demissão. “A velocidade e a intensidade dessa virada retórica da Meta, e a adesão a uma base ideológica tão distinta dos valores que orientavam meu trabalho até então (pensando nas medidas de integridade e segurança implementadas no WhatsApp nos últimos anos), isso simplesmente não é algo que eu possa compreender, muito menos apoiar”, escreveu.
Daniela afirmou ao g1 que sua saída não foi planejada. “Foi inesperada e eu não tinha exatamente um plano do que fazer depois, eu não estava saindo de uma empresa indo para outra”. Ela também disse que a decisão de deixar a Meta e criar uma ONG foi motivada pela percepção de que há insatisfação dentro das big techs. “Muitos funcionários dessas empresas pensam diferente do que a companhia defende e estão preocupados, mesmo trabalhando lá dentro”.



