Como a febre das canetas emagrecedoras está transformando os cardápios dos restaurantes
Os estabelecimentos gastronômicos correm para se ajustar à crescente turma que fica satisfeita com a meia porção, um fenômeno que está redefinindo a experiência de jantar fora de casa.
Adaptação criativa para novos hábitos alimentares
O impacto das canetas emagrecedoras não se limita apenas à perda de peso dos consumidores. Um efeito colateral menos visível, mas significativo, é a queda no movimento dos restaurantes, que agora enfrentam o desafio de atender a apetites mais moderados. A busca por uma vida saudável atingiu justamente o público que apreciava sair para refeições, levando muitos a repensar seus hábitos alimentares.
"A comida deixou de ser tão atraente", relata a fisioterapeuta Monique Lima, de 32 anos, que antes adorava beliscar opções calóricas. "Passei até a sentir certa aversão a doces e comidas gordurosas", acrescenta ela, exemplificando a mudança de comportamento.
Estratégias dos restaurantes para enfrentar a nova realidade
O primeiro sinal dessa transformação veio com o aumento na prática de compartilhar pratos, especialmente os maiores, como lasanhas. Nelson Pereira, proprietário do italiano Sult, no Rio de Janeiro, explica: "A gente cobra um pequeno valor a mais nesses casos, mas o importante é atender o cliente". Adaptar o cardápio para quem usa medicamentos que simulam o hormônio GLP-1, responsável pela saciedade, tornou-se um imenso desafio.
Das lanchonetes às casas estreladas, a solução foi encolher as porções. Por exemplo:
- O britânico The Fat Duck, com três estrelas Michelin, lançou uma versão compacta de seu extenso menu degustação.
- Restaurantes descolados como o Lulla, em Nova York, e The Banc, com endereços em Londres e Dubai, adotaram versões aperitivo de seus carros-chefe.
- Na coquetelaria, o Fleur Room, também nova-iorquino, desenvolveu martínis e outros drinques com meia dose, já que adeptos das canetinhas geralmente bebem menos álcool.
Variedade e sofisticação em ascensão
Embora os pratos tenham ficado mais enxutos, a variedade cresceu. Com porções menores, os clientes se tornaram mais seletivos, privilegiando ingredientes sofisticados. O chef Homero Cassiano, do japonês Mitsubá, celebra essa tendência: "Muitos estão optando por ingredientes mais refinados", observando o aumento na preferência por atum bluefin, de sabor mais pronunciado.
Uma pesquisa nos Estados Unidos revela que 63% dos adeptos das canetinhas já pedem menos comida do que o habitual. Julia Lima, analista de marketing de 24 anos, confirma: "Cheguei até a pedir pratos kids. Hoje como menos".
Adaptação com tempero tropical no Brasil
No Brasil, a adaptação inclui criatividade com nomes comerciais dos medicamentos. A pizza de brócolis com massa fina e ingredientes leves da Don Rafaelle, em Teresina, ganhou o apelido de "Combo Mounjaro". Em Volta Redonda, o Relicário Bistrô batizou seu menu com versões diminutas dos pratos prediletos do público, inspiradas nas canetas.
Sem apelar para marcas farmacêuticas, o Zena Cucina, em São Paulo, introduziu um nhoque de abóbora à bolonhesa que agrada aos consumidores ávidos por mais proteína e menos carboidrato. Com tino comercial e criatividade, os restaurantes mostram que o prazer de uma boa refeição pode acompanhar os cuidados com a saúde, celebrando a era da meia porção.