A morte do renomado novelista Manoel Carlos, no último sábado, 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos, fez muito mais do que comover o público. O evento reacendeu uma memória afetiva coletiva e trouxe à tona uma curiosa marca deixada em cartórios por todo o Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.
O fenômeno 'Helena' nos cartórios cariocas
Dados oficiais revelam um legado concreto da ficção na vida real. No estado do Rio de Janeiro, Helena foi o nome feminino mais registrado para bebês no ano de 2025, com um total de 2.457 registros. Esse fato está diretamente ligado ao trabalho de Manoel Carlos, carinhosamente chamado de Maneco, que ao longo de décadas apresentou ao público nove personagens centrais batizadas com esse nome.
As protagonistas criadas por ele atravessaram gerações na televisão brasileira, ajudando a transformar 'Helena' de um simples nome em um verdadeiro símbolo cultural. A primeira delas foi interpretada por Lilian Lemmertz na novela Baila Comigo, em 1981. A última Helena de Maneco chegou às telas em 2014, vivida por Júlia Lemmertz no drama Em Família.
O poder cultural das novelas na sociedade
Especialistas apontam que o fenômeno vai além de uma simples coincidência. Celso Belmiro, presidente da Anoreg-Brasil (Associação dos Notários e Registradores do Brasil), explica a influência do meio. "As novelas sempre exerceram um papel fundamental na construção cultural do Brasil", afirma.
Belmiro destaca que, por estarem presentes no dia a dia das famílias, as tramas não apenas espelham valores e comportamentos sociais, mas também impactam decisões pessoais íntimas, como a escolha do nome de um filho. "Personagens emblemáticos, a exemplo das 'Helenas' criadas por Manoel Carlos, atravessam diferentes gerações e permanecem vivos no imaginário coletivo", complementa o especialista.
Um legado que atravessa gerações
A trajetória de Manoel Carlos na televisão foi marcada por histórias que dialogavam diretamente com a realidade e os sentimentos do telespectador. Suas personagens, especialmente as Helenas, eram frequentemente retratadas como mulheres fortes, complexas e cheias de nuances, o que as tornava facilmente identificáveis e admiradas.
O impacto duradouro de seu trabalho é mensurável não apenas pela saudade do público ou pela crítica especializada, mas por um dado demográfico muito concreto: a preferência dos pais na hora do registro civil. O fenômeno mostra como a arte, e em particular a teledramaturgia, pode moldar tradições e preferências de forma profunda e duradoura.
A partida de Manoel Carlos encerra um capítulo importante da televisão brasileira, mas o legado de suas criações continua vivo, ecoando a cada nova Helena que recebe seu nome e inicia sua jornada no mundo real, carregando consigo um pedaço da nossa cultura.