Chef estrelado deixa comando do Noma após escândalo de maus-tratos a funcionários
O chef dinamarquês René Redzepi, uma das figuras mais influentes da gastronomia mundial nas últimas duas décadas, anunciou sua demissão nesta quarta-feira (11) do restaurante Noma, estabelecimento que liderava há exatos 23 anos. A decisão ocorre em meio a denúncias graves de agressões físicas e humilhações públicas contra funcionários, reveladas em uma investigação detalhada do jornal The New York Times.
Denúncias detalhadas de violência e exploração
A reportagem do prestigiado veículo norte-americano reuniu testemunhos de aproximadamente 35 ex-funcionários que trabalharam no Noma entre os anos de 2009 e 2017. Segundo os relatos, Redzepi tinha comportamento violento na cozinha, batendo, cutucando e empurrando colaboradores por erros considerados pequenos, com episódios que incluíam até mesmo socos quando perdia a paciência.
Além das agressões, os depoimentos revelaram condições de trabalho extremamente desgastantes, com jornadas que frequentemente ultrapassavam 12 a 16 horas diárias durante os períodos de maior movimento do restaurante. Outro aspecto preocupante destacado foi a prática de contratar estagiários estrangeiros que recebiam pouca ou nenhuma remuneração, apesar de cumprirem carga pesada de tarefas no estabelecimento que ostenta três estrelas Michelin.
Repercussão imediata e cancelamento de patrocínios
As denúncias tiveram consequências comerciais imediatas para o Noma. Dois importantes patrocinadores anunciaram a retirada de apoio a uma temporada de jantares que o restaurante planejava realizar em Los Angeles, conhecidos como pop-ups. Tanto a American Express quanto a startup de hospitalidade Blackbird cancelaram sua participação no evento, que tinha ingressos vendidos a US$ 1.500 (cerca de R$ 7.700) por pessoa e estava com todas as reservas esgotadas.
As empresas afirmaram que reembolsarão clientes que haviam adquirido ingressos através de suas plataformas e doarão os valores arrecadados para organizações que defendem os direitos dos trabalhadores do setor gastronômico. Ben Leventhal, fundador da Blackbird, foi enfático em comunicado: "As práticas passadas de René, segundo ele próprio admitiu, eram inaceitáveis e abomináveis. Não podemos simplesmente nos apoiar no tempo decorrido e em alegações de reabilitação quando essas coisas ressurgem."
Pedido de desculpas público e renúncia a cargos
Em seu perfil no Instagram, René Redzepi publicou uma nota extensa assumindo responsabilidade pelas ações relatadas. "Tenho trabalhado para ser um líder melhor e o Noma deu grandes passos para transformar sua cultura ao longo de muitos anos. Reconheço que essas mudanças não reparam o passado. Um pedido de desculpas não é suficiente; assumo a responsabilidade por minhas próprias ações", escreveu o chef.
Além de deixar o comando do Noma, Redzepi também anunciou a renúncia ao cargo de conselheiro da MAD, organização global sem fins lucrativos com sede em Copenhague que ele mesmo fundou em 2011. "Após mais de duas décadas construindo e liderando este restaurante, decidi me afastar e permitir que nossos líderes extraordinários guiem agora o restaurante em seu próximo capítulo", afirmou.
Legado e futuro do Noma
Considerado um dos restaurantes mais influentes da gastronomia contemporânea, o Noma ajudou a redefinir a culinária moderna com sua abordagem experimental e uso intensivo de ingredientes locais, sazonais e muitas vezes colhidos diretamente na natureza. Em sua nota, Redzepi destacou que a equipe atual do Noma é "a mais forte e inspiradora que já existiu" e que o restaurante seguirá com sua residência em Los Angeles.
O escândalo levanta questões importantes sobre a cultura tóxica que pode existir mesmo nos estabelecimentos mais prestigiados da gastronomia mundial, destacando a necessidade de maior transparência e respeito aos direitos trabalhistas no setor. A demissão de Redzepi marca o fim de uma era para o Noma e um momento de reflexão para toda a indústria gastronômica internacional.
