Salgueiro transforma legado de Rosa Magalhães em enredo para 2026
Nesta terça-feira (17), a escola de samba Salgueiro anunciou emocionante homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães, que será o enredo central do desfile de 2026. A mestra, reconhecida como a maior vencedora da era do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, faleceu em julho de 2024, aos 77 anos, vítima de infarto, deixando trajetória que atravessa mais de cinco décadas de carnaval e sete títulos do Grupo Especial.
Professora que redefiniu o carnaval carioca
Rosa Lúcia Benedetti Magalhães, nascida no Rio de Janeiro em 8 de janeiro de 1947, era filha do escritor Raimundo Magalhães Júnior e da autora teatral Lúcia Benedetti. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes e em Cenografia pela Uni-Rio, ela construiu sólida carreira acadêmica como professora na UFRJ e na Faculdade Benett. Essa formação técnica e intelectual moldou sua visão única do carnaval como narrativa visual e espetáculo total.
A carnavalesca ajudou a redefinir o carnaval carioca ao transformar literatura, história, mitologia e identidade brasileira em desfiles de rigor estético, riqueza visual e leitura sofisticada. Seu impacto na evolução do "maior espetáculo da Terra" é tão significativo que o Salgueiro a transformou em enredo com o título “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”.
Trajetória que começou no Salgueiro em 1970
A entrada de Rosa no carnaval aconteceu em 1970, quando foi convidada por Fernando Pamplona a integrar a equipe do Salgueiro. No ano seguinte, a escola conquistou o título com “Festa para um rei negro”, desfile que marcou ruptura estética ao valorizar a cultura negra durante a ditadura militar. Rosa se formou na chamada “Academia do Samba”, ao lado de nomes como Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta e Lícia Lacerda.
Após passagem pelo Salgueiro, ela desenhou figurinos para a Beija-Flor e trabalhou na Portela, aprofundando seu domínio técnico. Seu primeiro campeonato como carnavalesca veio em 1982, no Império Serrano, com o histórico enredo “Bumbum Paticumbum Prugurundum”.
Anos de glória e hegemonia na Imperatriz
O período mais vitorioso da carreira de Rosa Magalhães começou em 1992, quando assumiu o carnaval da Imperatriz Leopoldinense. Pela escola de Ramos, construiu hegemonia inédita e conquistou cinco títulos do Grupo Especial:
- 1994: “Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e dos Tabajéres”
- 1995: “Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará”
- 1999: “Brasil, Mostra a Sua Cara em... Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae”
- 2000: “Quem descobriu o Brasil foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval”
- 2001: “Cana-caiana”
Esse tricampeonato histórico (1999-2001) consolidou sua posição como referência máxima do carnaval carioca.
Sétimo título e últimos trabalhos
Depois da longa passagem pela Imperatriz, Rosa assumiu o carnaval da União da Ilha e, em seguida, da Vila Isabel. Foi pela escola de Noel que conquistou seu sétimo e último título do Grupo Especial, em 2013, com “A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – ‘Água no feijão que chegou mais um’”. O desfile exaltava a agricultura brasileira com soluções cênicas criativas, como a comissão de frente que revelava a terra como força vital.
Posteriormente, passou por Mangueira, São Clemente e Portela, onde assinou os carnavais de 2018 e 2019. Seu último carnaval foi em 2023, no Paraíso do Tuiuti, ao lado de João Vitor Araújo.
Legado além da avenida
Fora do carnaval, Rosa Magalhães também foi responsável por grandes eventos culturais. Ela desenvolveu a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e venceu um prêmio Emmy pelo figurino da abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Em 2022, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Uerj.
Homenagem que transforma avenida em biblioteca
Para o carnavalesco Jorge Silveira, a homenagem do Salgueiro traduz a dimensão da artista: “É uma linda homenagem à professora Rosa Magalhães. A gente abre o desfile do Salgueiro entrando na biblioteca e os personagens vão nos receber nessa homenagem”.
A escola pretende transformar a avenida em uma grande biblioteca imaginária, na qual cada setor do desfile representará um universo criativo explorado por Rosa em sua trajetória. Cada setor funcionará como estante de memórias, reunindo mitos, viagens, personagens e símbolos que a carnavalesca traduziu em carnaval.
A destaque Samille Cunha exaltou a importância da mestra: “Ela marcou a história do carnaval. Foram 50 carnavais e eu tive a honra e prazer de desfilar em 38 enredos dela”.
Rosa Magalhães deixou obra que atravessa gerações e permanece como referência absoluta do carnaval carioca. A Imperatriz Leopoldinense já batizou seu barracão na Cidade do Samba com o nome da carnavalesca, e agora o Salgueiro levará sua trajetória para a avenida em 2026, fechando ciclo que começou quando a escola abriu suas portas para a jovem artista em 1970.



