Viradouro executa operação cronometrada para mestre Ciça brilhar em dois momentos do desfile
A escola de samba Viradouro montou uma operação nos bastidores da Marquês de Sapucaí para garantir a participação do mestre Ciça em dois momentos estratégicos do desfile. Homenageado como enredo da agremiação, Moacyr da Silva Pinto, de 69 anos, deixou a pista em uma cadeira de rodas e, minutos depois, retornou ao início da avenida de moto, escoltado por batedores, para reassumir o comando da bateria.
Rotina simples mantida antes da apresentação
Horas antes da entrada na avenida, Ciça manteve a rotina que repete há quase quatro décadas. Independentemente do horário do desfile, ele chega à concentração no início da tarde. "Eu sempre cheguei, 38 anos eu faço isso como mestre de bateria. Meu caminhão tem que estar uma da tarde na concentração, é uma espécie de preocupação com o trânsito", explicou o mestre da Viradouro.
Mesmo sendo o enredo da escola, ele afirmou que não mudaria o comportamento. "Eu podia estar, como enredo, eu podia estar num lugar diferente, mas eu preferi ficar aqui com eles, não vou mudar nunca a minha rotina no carnaval", completou Ciça.
Homenageado em vida e avaliado pelos jurados
Neste ano, a preparação teve um peso diferente. Além da responsabilidade à frente da bateria, Ciça entrou na avenida como tema central do desfile. Essa foi a primeira vez na história do carnaval carioca que uma mesma pessoa é enredo e também avaliada pelos jurados.
"Eu sou enredo do maior carnaval do mundo. Sabe o que é isso pra um sambista? Pô, eu vou pisar na avenida como enredo, sendo julgado, olha só que coisa bacana pra mim", celebrou Ciça. Antes do desfile, ele falou sobre a expectativa para a apresentação. "Eu tenho certeza que a emoção vai tomar conta de mim, mas faz parte, eu tenho que segurar a onda porque tenho responsabilidade na bateria, mas vai ser um desfile inesquecível pra mim", concluiu.
Estratégia cuidadosamente planejada
O deslocamento de moto pela avenida se tornou um dos registros mais comentados do bastidor do desfile e evidenciou a operação montada para garantir a presença do mestre em diferentes pontos da apresentação. Aos 69 anos, o mestre da Viradouro executou um plano cronometrado que envolveu troca de roupa, moto e reaparições estratégicas ao longo da Sapucaí.
Como enredo da escola nesse carnaval, Ciça "se multiplicou", comandando a bateria, aparecendo de surpresa na Comissão de Frente, apresentando o 1° casal de mestre sala e porta bandeira e voltando correndo para o fim do desfile, para retomar o controle de seus ritmistas e levar sua bateria para o alto do último carro alegórico da escola.
No momento em que a comissão de frente se aproximava da Praça da Apoteose, após apresentação para os quatro módulos de jurados, o mestre foi colocado em uma cadeira de rodas, rapidamente deixou o local, pegou uma moto e retornou ao início da avenida com outra roupa para se apresentar no primeiro recuo de bateria.
Inovação e impacto em todos os pontos da avenida
Pouco depois, Ciça voltou novamente à pista, desta vez acompanhado da bateria, reforçando sua presença em todos os módulos de julgamento. A estratégia foi cuidadosamente planejada: primeiro, ele se apresentou junto à comissão de frente, garantindo impacto visual e artístico; em seguida, retornou de moto para o começo da Sapucaí, assumindo seu posto tradicional à frente dos ritmistas.
Laisa Bastos, assistente da comissão de frente da Viradouro, destacou o envolvimento do mestre em todo o processo criativo. "Neste ano eu vim de ‘baba’ do Ciça. Ele participou de todo o projeto da escola, deu opinião e esteve presente. Com ele na comissão de frente conseguimos interpretar melhor. E agora, ele saiu da comissão de frente porque ele vale nota. Tudo isso foi feito com muito estudo, tudo cronometrado", explicou Laisa.
A ousadia da Viradouro chamou atenção não apenas pela execução precisa, mas também pela inovação. A escola uniu o mestre da bateria à comissão de frente e depois devolveu Ciça ao comando dos ritmistas. Foi uma jogada inédita, que reforçou a narrativa da escola e garantiu impacto em todos os pontos da avenida.
Na concentração, ritmistas destacaram a importância do mestre para a escola. "Esse cara tem um significado muito grande na minha vida. Eu assistia pela televisão e dizia: 'meu sonho é desfilar com ele'. E ele abriu as portas pra mim. Agora eu vim aqui porque eu tinha que dar um abraço nele", comentou um dos participantes.



